SOMA-IÊ como nome preciso para técnica idealizada por Roberto Freire

Em busca de criar um método terapêutico corporal que fosse completo e tivesse efeitos mais duradouros, Freire decidiu acoplar às duas principais vertentes (citadas no texto NOME 2) que definiam o seu método, um outro imenso universo de possibilidades corporais chamado “Capoeira de Angola”, ao qual atribui fantásticos poderes desencouraçantes. Passou a exigir de forma radical a obrigatoriedade do treino e prática da Capoeira de Angola para quem quisesse fazer sua terapia (esse assunto é tratado na crítica A obrigatoriedade da prática da Capoeira de Angola).

Diante desse novo fator entendo que acaba a necessidade da busca de um nome que bem designe a técnica de Freire porque o trabalho de melhor nomeá-la, depois do marco de união com a Capoeira de Angola, acabou sendo feito por um de seus primeiros assistentes: o somaterapeuta Rui Takeguma, que se afastou do Coletivo Brancaleone exatamente por divergências quanto à forma como os outros somaterapeutas vinham cumprindo a obrigatoriedade da prática da Capoeira, tanto com relação a seus clientes quanto a si mesmos, e, ao se dissociar, criou o termo SOMAIÊ para nomear seu trabalho a partir de então. Entendo que, independente de qualquer outra coisa, o nome SOMAIÊ é o que de forma mais precisa representa o que Freire idealizou para sua técnica terapêutica.

Havia uma situação velada que Takeguma buscava desmascarar. Por um lado, os somaterapeutas do Brancaleone não se dispunham a comunicar Roberto Freire que a obrigatoriedade da Capoeira estava sendo questionada por eles através de suas atitudes e que deveria, então, ser revista numa ampla discussão sobre o assunto. Por outro lado eles não entravam de cabeça no universo da capoeiragem e não cobravam de seus clientes que o fizesse. Na prática do Coletivo Brancaleone, tanto faz se um cliente pratica ou não capoeira durante a Somaterapia, isso não é exigido pelos somaterapeutas do Brancaleone. Na teoria e no ideal freireano, porém, essa obrigatoriedade continua. A Capoeira praticada na Soma é, de certa forma, uma capoeira “café-com-leite”, não muito séria, com pouca dose de um de seus ingredientes mais fundamentais e picantes – o fato de que ela é uma luta e não só uma brincadeira. Ela é teatro, mas a encenação é mandinga que tem fundamento, tem porquê.

Takeguma literalmente passou a bater nos outros somaterapeutas dentro das rodas de capoeira para tentar mostrar-lhes como sua capoeira era frágil e hermética. Ele se distingue dentro do Coletivo Brancaleone porque como capoeirista consegue ganhar respeito dos outros grupos de Capoeira Angola. A Capoeira não dá diplomas e o reconhecimento do trabalho de um grupo de capoeira acontece pela capacidade e competência. A capoeira da somaterapia-de-Roberto Freire não consegue se estabelecer no universo da capoeiragem, não adquire respeito dos outros grupos, permanece no hiato entre terapia e capoeira.

Por tudo isso, Takeguma decide trilhar caminho próprio, e cria o nome SOMAIÊ para designar seu trabalho e diferencia-lo do da SOMA praticada pelo Coletivo Brancaleone. Cria também a FACA – Federação Anarquista de Capoeira Angola, que reúne os grupos de capoeira ao dele filiados. A obrigatoriedade da prática da Capoeira de Angola cria a necessidade da existência de um grupo de capoeira. Não há como ficar “em cima do muro” quanto a essa questão.

SOMAIÊ individualiza o termo genérico SOMA, acrescentando-lhe a síntese do que Roberto Freire destacou como as grandes diferenças do seu trabalho em relação a outras terapias: a ideologia libertária e a capoeira de angola. Tanto é assim que, para poder nomear melhor seu trabalho, Freire sempre fez uso de dois complementos para o nome SOMA: “uma terapia anarquista” e “Soma-Capoeira”.

Iê” é o grito ancestral que abre e fecha a roda da capoeira. Ele é longo na abertura: Iêêê … . Ele é curto e seco no fechamento: Iê !!! . Dar um “Iê” significa soltar a voz até o ponto de perder o controle sobre ela e deixar que se expresse plenamente por um instante. O som do Iê cria um momento libertário. O Iê é um ato revolucionário que tem seu sentido real e simbólico, não só no aqui-agora de uma sociedade onde a livre expressão de nosso grito é reprimida, mas também dentro de uma revolução sócio-cultural que acontece no Brasil há 400 anos, chamada Capoeira.

O entrelaçamento entre a somaterapia-de-Roberto Freire e a Capoeira de Angola foi afirmado de forma categórica e definitiva por ele mesmo, conforme demonstro melhor no próximo item. Dentro desse quadro, entendo que Takeguma soube expressar em um só nome o exato sentido do método terapêutico idealizado por Roberto Freire, porque foi ele -Takeguma – o único a realmente radicalizar a orientação deixada por Freire quanto à prática da capoeira e a prática da própria radicalidade. Hoje entendo isso com clareza, mas durante minha formação houve um momento em que me dediquei muito à Capoeira – era professor e mantinha um grupo há mais de dois anos, num projeto paralelo, bancado pela Prefeitura de Florianópolis, há cerca de um ano, vinha ensinando capoeira a crianças numa comunidade carente próxima a minha casa; também mantinha há mais de seis meses oficinas de capoeira para usuários de psicotrópicos, dentro dos CAPS (Centro de Apoio Psicossocial da Secretaria de Saúde de Florianópolis) adulto e infantil, num projeto de extensão da UFSC (que gerou o trabalho acadêmico “A Capoeira como instrumento terapêutico para pessoas com sofrimento psíquico, usuários do serviço público de saúde”, que está em anexo). O que eu pretendia fazer com esse movimento era exatamente o que nos orientava Roberto Freire: pesquisar a Capoeira, desenvolver exercícios terapêuticos a partir dela, estudar seus efeitos em crianças, suas possibilidades pedagógicas, estudar seus efeitos tanto em neuróticos como em psicóticos, suas possibilidades terapêuticas, etc. Mas, o que constatei dentro da minha formação foi que quanto mais eu me aproximava da Capoeira, mais me afastava do rumo que meus orientadores queriam. Em outras palavras, eles não davam valor ou apoio a minha iniciativa nesses projetos, pelo contrário. Ao mesmo tempo não criticavam a Capoeira abertamente, de forma direta.

Lembro de um encontro de Pedagogia Libertária no qual, ao final dos trabalhos, Takeguma propôs uma roda de capoeira. Era domingo fim-de-tarde no Rio de Janeiro, nada mais propício. Todos os somaterapeutas foram fazer outra coisa. Takeguma teceu o comentário: “Parece que esse pessoal não gosta de Capoeira”. Realizou a roda sozinho, com os clientes.

No próximo encontro que houve, cerca de um mês depois, na roda de abertura do evento, Takeguma deu duas rasteiras seguidas num membro do Brancaleone. As duas aconteceram da mesma forma: essa pessoa deu um golpe bem devagar, levantando o pé como se estivesse em câmera lenta, Takeguma muito rapidamente atingiu o pé de apoio e o derrubou; reiniciaram a luta e a primeira coisa que essa pessoa fez foi a mesma “brincadeira” de câmera lenta, Takeguma deu-lhe outra rasteira.

Na reunião do Coletivo que houve no dia seguinte, esse fato gerou enorme polêmica interna no Brancaleone e foi o estopim da bomba que culminou na saída/secessão de Takeguma. Antes da reunião se iniciar, Roberto Freire disse que não iria dela participar, declarando sua saída definitiva do Brancaleone. Embora o fato (as rasteiras seguidas) tenha sido apenas bode expiatório de uma crise bem maior que culminou não só com na saída de Takeguma como na do próprio Freire, ele é completamente significativo dessa crise e a retrata perfeitamente. Hoje, analisando aquele jogo, percebo que o golpe em câmera lenta sem o devido cuidado de se safar rapidamente caso realmente ocorresse uma rasteira era típico da ingenuidade dos capoeiristas da Soma. A Capoeira é, antes de mais nada, um jogo, uma luta. Se alguém se expõe excessivamente, está chamando um ataque para si e, portanto, deve saber o que fazer com ele quando ele acontecer, já que foi o próprio capoeira que o chamou. Aí é que está o equilíbrio: o capoeirista experiente se abre, planta uma bananeira, faz movimentos em câmera lenta, finge que se distrai, etc., mas faz isso como forma de armadilha, se vem o ataque, ele se aproveita de já o estar esperando e se antecipa no contragolpe. Por isso também que não é costume se atacar uma capoeirista que se abre – trata-se de uma armadilha, mas tem que bancar esse “blefe” – se o capoeira se abriu demasiado, no mínimo precisa ter a capacidade de se fechar rapidamente caso precise se defender de um golpe súbito. Caso contrário ele está “tirando um sarro” da própria Capoeira e há de aparecer um capoeirista que lhe mostre o respeito a essa arte.

Há um equilíbrio muito sutil entre ataque e defesa, encolhimento, abertura, exposição, disfarçe. Muitas vezes no jogo lento da Capoeira Angola há possibilidade de ataque súbito que não acontece porque o outro se fecha como quem sabe do perigo que corre, desarmando a surpresa. O jogo segue, os capoeiristas seguem atentos a essa comunicação, mesmo que um não acerte o outro, eles mostram que podem fazê-lo e o outro mostra que poderia ter se defendido e contratacado e, no momento preciso, alguém solta o golpe e pega o outro desprevenido, aberto. O que Takeguma fez foi dar o golpe logo no princípio do jogo. O outro repetiu o desafio, ele repetiu o golpe. Nada mais preciso dentro da Capoeira.

Hoje percebo o que dizia Takeguma, mas na época estava muito envolvido com minha formação, com o pontual, queria fugir da dúvida e isso significava fugir da Capoeira, aos poucos fui deixando de colocar energia nisso, a tal ponto que o grupo de Capoeira da Soma em Florianópolis acabou. Quando percebi que isso não modificou em nada a dinâmica do grupo sob a responsabilidade do somaterapeuta que me dava formação, tive a certeza de que estava perdendo tempo me dedicando tanto a capoeira.

Hoje, olhando de fora, percebo que o momento da saída de Roberto Freire do Coletivo Brancaleone, que vinha se dando aos poucos já havia uns três anos, estava concretizando-se e que isso escancarava de vez as diferenças quanto a prática da Capoeira que os somaterapeutas vinham tendo em seus grupos.

Dentro do quadro formado no rigor da técnica idealizada por Roberto Freire está a SOMAIÊ.

Fora desse quadro está a crítica aberta a essa obrigatoriedade.

Na moldura estão os que fazem essa crítica de forma velada ou inconsciente.

 

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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2 Respostas to “NOME 3 – SOMAIÊ”

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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