Oposição às psicoterapias e desconsideração à transferência nas palavras do próprio Roberto Freire

O nome “somaterapia” surge para demarcar bem a distinção e oponência de Roberto Freire à Psicanálise e às psicoterapias. No livro Soma vol.2, no capítulo sobre o “Breve Histórico da Soma”, Roberto Freire nos conta que:

Voltando ao Brasil em 1974, imaginava a criação de uma espécie de antipsicoterapia, com base nas descobertas de Reich (…) A palavra Soma viria substituir o prefixo Psi que eu pretendia retirar da designação do meu trabalho”. (pg. 56 e 57)

A oposição de Roberto Freire à Psicanálise aparece em vários pontos de sua obra escrita e também se reflete diretamente na metodologia da terapia por ele criada, assim como nas instruções e orientações que dá aos somaterapeutas em formação:

“Na cultura ocidental contemporânea existem duas correntes de pensamento trágico que nós, homens que optamos pela ludicidade de viver, devemos denunciar e combater: o Catolicismo e a Psicanálise”.

“Nascida do pensamento de um homem genial, mas profundamente pessimista, triste, amargo e ressentido, a Psicanálise reflete as características da história da religião e da raça judaica no mundo”.

Estou querendo concluir que a religião judaica e a cristã, bem como tudo aquilo que a elas está ligado, direta ou indiretamente, como a Psicanálise, por exemplo, representam o antitesão. Porque essas coisas existem para combater e impedir o viver natural lúdico e sobretudo, o relativismo existencial que chamamos de liberdade.” (pgs 31 e 33 do livro Sem Tesão não há Solução)

Essa oposição se estende à Psicologia e, apesar de ser médico e psicanalista, mas não psicólogo, Roberto Freire escreve:

“Quero dizer que sempre senti grande dificuldade para compreender a neurose das pessoas através das deformações neuróticas produzidas em minha mente e minha vida pela neurose social que atua sobre todos nós. Mas, graças a alguns furos que consegui produzir em minha couraça neurótica, quando substituí a compreensão do comportamento humano através da Psicologia analítica ou behaviorista por uma investigação política, de caráter revolucionário, dos mecanismos de poder que procuram bloquear o tesão de viver das pessoas, descobri que a Psicologia não tem condições para entender e resolver problemas psicológicos, emocionais e comportamentais. A principal e mais grave neurose que existe é a própria Psicologia. Então, realizando um combate sistemático a tudo o que tenta impedir o prazer de viver em minha natureza animal e, sobretudo, em minha naturalidade e cultura propriamente humanas, começo a ver alguma luz no fim do túnel escuro da Psicologia e da Psiquiatria. Refiro-me às pesquisas que me levaram à criação da Soma …” (pg 62 e 63 do livro Sem tesão não há solução) – Obs.: O grifo em itálico foi dado por mim. No original, Roberto Freire afirma isso normalmente.

“É importante ressaltar que, na Gestalterapia e na Soma, a redefinição do real atual precede a elaboração do imaginário, ao contrário da psicanálise, na qual a elaboração do inconsciente através da transferência é o ponto de partida para se chegar a um contato mais autônomo com a realidade. Além disso, na Soma e na Gestalterapia não há interesse sobre a história pessoal do paciente (sua utilização só é feita no presente) e abandona-se a interpretação, por considera-la coercitiva e autoritária. Desconfia-se da transferência, que é abandonada para dar lugar à honestidade, à franqueza e à presença humana do terapeuta” (pg. 66 do livro Soma vol.1).

Há uma grande confusão que Freire faz entrelaçando o estudo sobre a transferência e sua dinâmica, bem como a sua consideração na prática terapêutica com falta de honestidade, de franqueza e de presença humana do terapeuta. Como resposta digo que criar uma metodologia terapêutica sem considerar a importante função das transferências é ser, no mínimo, ingênuo ou negligente e, no máximo, irresponsável ou anti-ético.

Acontece que Wilhelm Reich não só trabalhou com as questões transferenciais em sua prática terapêutica como também foi responsável por desenvolver teorias e práticas sobre a transferência negativa, preenchendo uma lacuna deixada por Freud. Esse é o primeiro grande contra-censo que Roberto Freire cria ao se opor radicalmente contra a Psicanálise utilizando Reich. Ele também se opôs à Psicanálise, mas isso significou ampliar os estudos sobre a transferência e não desprezá-la. É um grave erro metodológico da Somaterapia-de-Roberto Freire misturar as concepções da Gestalt terapia sobre o manejo da transferência com teorias e práticas reichianas, e com isso não dar o devido valor às múltiplas transferências que ocorrem dentro desse trabalho.

Ao buscar uma base reichiana para se contrapor radicalmente à Psicanálise e à Psicologia, Roberto Freire cria alguns contracensos que são a gênese de falhas existentes na metodologia da SOMA e que estão longe de ser superadas porque não foram devidamente apontadas ou reconhecidas pelos chamados “somaterapeutas”. Essa confusão está presente no próprio nome somaterapia que tenta negar sua origem enquanto psicoterapia corporal ou psicoterapia somática – nomes dados às terapias reichianas, porque Reich não renegou o aspecto psi de seus métodos terapêuticos.

A Soma é uma terapia neo-reichiana, o próprio Freire localiza assim no início do capítulo 8 do livro Soma 1, onde pretende explicar as bases científicas da metodologia da Soma: 

No campo propriamente psicológico, em última análise, a Soma tem origem no que se convencionou chamar de pesquisas neo-reichianas em Bioenergética, especialmente no trabalho de Alexander Lowen. Por essa razão vamos nos utilizar do próprio Lowen para realizar a passagem de Freud à Bioenergética, passando por Reich e terminando por explicar como, seguindo esses caminhos, desembocamos na síntese da Soma”. (pg. 79)

As terapias neo-reichianas são amplamente conhecidas como psicoterapias corporais ou psicossomáticas.

Mesmo firmando-se em base reichiana, Freire tenta negar o aspecto psi de seu método terapêutico. Ele quer dar conta desse contra-censo por duas saídas:

Uma filosófica, afirmando que a Soma tem uma visão monista e que o aspecto psicossomático da Bioenergética é dualista. Com isso, Freire nega a concepção psicossomática de Lowen, mas utiliza a Bioenergética (recriando o contra-censo):

Mas Lowen continua sendo um analista separando a energia psíquica da somática e, apesar de tudo o que estudou e constatou depois de Ferenczi e de Reich., mantém ainda uma concepção e uma abordagem dualista, seguindo Freud. Essa dualidade aparece em seu método terapêutico bioenergético que se coloca, assim, como ponte entre os procedimentos terapêuticos de origem psicanalítica e os de origem reichiana. No que difere fundamentalmente da Soma, cuja visão e atuação são de origem radicalmente monista.”

Paralelo à afirmação filosófica monista, Roberto Freire tem que ampliar ao máximo o significado que ele tem da palavra “soma”. Tudo passa a ser Soma, inclusive fenômenos psíquicos como pensamentos, sonhos, emoções, idéias, fantasias e projetos.

Por Soma de uma pessoa não se entende apenas aquilo que reside no interior de sua pele. Além disso será seu Soma o que ela produz, desde o esperma e o amor, os pensamentos e os sonhos, todas as suas extensões corporais carregadas de afeto e prazer, sua casa e suas roupas, seus filhos e amantes, a saudade, a ideologia, as fantasias e os projetos.”

“”Soma não quer dizer “corpo”; significa “Eu, o ser corporal”” (pág. 22 do Soma 1)

Soma, pois, é a luta e o trabalho para liberar nosso soma do que impede sua auto-regulação, seu crescimento e desenvolvimento espontâneos e naturais” (pág. 24 do Soma 1)

O Soma, em última análise, representa a forma pela qual a vida se manifesta na realidade humana cotidiana.” (pág. 25 do Soma 1)

Na concepção ampliada de Roberto Freire, Soma é quase tudo. Inclusive o que nomeamos como fenômenos psicológicos como sonhos, fantasias e pensamentos. A pergunta que surge é: se Psi e Soma são a mesma coisa, ou ainda, se uma palavra abarca a outra, contém seu significado, a supera e a torna desnecessária, por que são dois nomes que existem desde os gregos e permanecem vivos hoje, aqui-agora, necessários para significar coisas distintas?

Todos os métodos terapêuticos ditos reichianos são nomeados psicoterapia corporal, psicoterapia somática ou terapia psicossomática. Qual o preconceito da SOMA com o aspecto psi do universo reichiano? O fato dele ter uma base psicanalítica? Pois é: Dai a Freud o que é de Freud! Reich deu. Por isso conseguiu criar, renovar, ultrapassar os limites do que Freud deixou enquanto método psicoterapêutico e teoria associada.

No meu entendimento, Wilhelm Reich foi o grande precursor da ciência psicossomática. Em seu estudo do universo somático, ele não descarta em nenhum momento sua visão psicológica, sua origem psicanalítica. Pelo contrário, ele unifica. Ele trás o corpo ao estudo da personalidade pela via científica da neuromuscularidade. Acrescenta informações. Na questão do método, a partir da base de análise psicanalítica do conteúdo, Reich alça seu vôo para análise da forma – que é a análise do corpo, do gesto, do tom da voz, da postura de sustentação, da respiração, …, ou seja, para análise do Soma – o Corpo em expressão. Reich não separa os universos psíquico e somático, nem em suas teorias, nem em sua prática terapêutica. Ele transita pelos dois universos a ponto de torná-los um só. Devemos a ele a construção de pontes utilizadas por muitos outros pesquisadores que buscam entender a unidade e o todo que representa um ser humano: um ser único, individual, uma totalidade, mas também um conjunto de diferentes fenômenos de expressão no espaçotempo. 

 

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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8 Respostas to “TRANSFERÊNCIA 2 – Freire”

  1. Iago Says:

    Me parece uma questão SOMENTE terminológica… queria saber se isso influencia em algo a pragmática terapeutica, e se essa influência é deletéria. O Deleuze, minha referência teórica, também pode ser considerado “monista” nesse sentido (uma de suas formulações básicas é “o ser é unívoco”, e sua categoria monística por excelência é a “produção” – “produção” de idéias, esperma, calor, sons, o que for). Acho que a distinção corpo/mente pode sim ser realizada, pois há uma diferença (e acho que o Rui a realiza durante as leituras e fechamento), mas essa acho que esta diferença não pode ser lida como oposição ontológica ou essencial (e aí que tá o risco que eu acho que se contorna manejando uma categoria monística). A oposição mente x corpo é, ao meu ver (bem esquizoanalítico) uma construção sociohistórica, e sua pertinência ao meu ver se deve PRECISAMENTE aos processos de estratificação que um approach anarquista se propõe a desmontar.
    Mas esse capítulo eu achei pobre comparado aos que li até agora (faltam só 3) porque me soou mais uma implicância formalista do que uma consideração realmente prática.

    • fabioveronesi Says:

      Conheço pouco de esquizoanálise. Mas, conheço um pouco. P mim Deleuze fez a mais contundente crítica a Freud. Ele abala os alicerces da Psicanálise – Inconsciente e Édipo. Esse abalo é tão profundo q não há como construir nada em cima, por isso surge um método terapêutico que não só é diferente da Psicanálise, mas q propõe todo um outro paradigma sobre o que seja método terapêutico ou terapia.
      Aí q está! – Reich não faz isso. Ele rompe com Freud, mas não quebra com as bases da Psicanálise, pelo contrário, ele trás novidades, amplia o conceito de inconsciente para a esfera corporal, amplia a pesquisa sobre transferência, etc.
      Eu, particularmente, preciso da segurança de um método bem estabelecido para poder trabalhar com pessoas apoiando seus processos de terapia. Sem isso corro o risco de me perder. É claro que meu método não é exatamente reichiano, nem freudiano, yunguiano, deleuziano, etc. O método que uso é “fabiano”. Acredito que seja assim com todo terapeuta – ele mistura influências que se transformam nos ingredientes de sua técnica pessoal q em última instância é única, pessoal. Mas, não é por isso q conseguimos misturar qualquer linha sem correr o risco de perder a coerência, o eixo de nossa ação.
      Não acredito que a mistura de esquizoanálise com análise do caráter possa dar um bom caldo.
      Marquito, meu querido professor de esquizoanálise, certa vez teceu o seguinte comentário sobre Reich (exatamente em resposta a uma questão minha onde eu tentava encontrar pontes entre o q ele havia ensinado sobre Deleuze e o q eu sabia sobre Reich): “Reich?! – aquele cara q antes dele a gente era proibido de fazer sexo livremente e depois dele a gente passou a ser obrigado a fazer sexo livremente?!”. E, em cima disso ele teceu uma das críticas mais coerentes q já ouvi sobre Reich. Percebi q os esquizoanalistas estão bem situados fora da metodologia reichiana, apesar das mais diversas possibilidades de construirmos pontes entre seus conceitos. Assim tb se passa com a Gestalt terapia. As críticas de Perls à Reich, assim como a postura dos gestalt terapeutas em geral com relação à Reich e a Análise do Caráter, mostram claramente a impossibilidade de uma boa msitura entre os métodos.

      • fabioveronesi Says:

        Sobre trabalhar com as palavras do próprio Freire, a intenção foi apontar um preconceito contra a Psicanálise (q se estende à Psicologia) que nem Reich teve.
        Mais do q uma forma de cegueria, um forte preconceito é um esteriótipo q procura omitir o contrário do q revela com exagero.
        Concordo com o q vc coloca sobre o formalismo, mas essa “fôrma” não é um molde vazio. Por isso essa implicância q vc aponta. Essa fôrma emoldurava as práticas e os discursos dos terapeutas em seu trabalho com os grupos. Soubessem ou não exatamente de onde vinham os conceitos q eles repetiam, todos tinham o mesmo forte preconceito contra a Psicanálise.

    • marcelo antunes Says:

      De fato, sinto que a experimentação de uma terapêutica aponta para o soma, porque o ponto de estofo da linguagem é o corpo em sua extensão e profundidade. Falo do corpo físico. Todas dialéticas que reduzem ou corpo a linguagem ou vice versa, patinam na esteira do retorno do identico, do mesmo ou sera que retorno do identico é a pura diferença como presume em sua analise do eterno retorno explorado por Deleuze como diferença e repetição, toda via as correntes morfologicas do campo das terapia neo reichinas como as terpias somáticas ainda trabalham como as extensões interpretações ao nível da personalidades neuromuscular e até mesmo as morfologias estáticaS do carater somático, cita Devid Bodela e Stanley Kelemann, mas ainda ou pior ainda quando submetemos o sujeitio psicosoma ao campo da linguagem simbólica em sua cadeia de dignificado significante reduzindo-o a subjetividade ao conteúde da fala em sua cadeia de significações e enunciações discursivas sem ao menos contextuliza-las a partir da política, economia e socialogia. Vejo que o projeto esquizoanalise Deleuze e Guatarri a partir da análise sobretudo da filosofia empirista de David Hume, Leibniz seguindfo as analises políticas da linguagem denunciadas por Nietzsche e posteriormente por Michel Foucault nos ajudam a refletir sobre as estrturas metapsicologicas de Freud a partir de outros alhores, mas não fiquemos ainda por aqui é necessaário neste trageto estudarmos as categorias de virtualidades, cérebro entre outros achados quanto a imagem, tempo, memória entre outras categorias de Henry Bergson acredito que aí, podemos apontar para um metaprojeto do corpo, é um convite?!
      Mas, enquanto não criamos ficamos recriado o que é obvio, me parece apenas um estatuto ontologico de ser ou não não ser, mais torna-te o que tu és!

  2. Iago Says:

    Então, eventualmente, eu pretendo elaborar mais da relação entre o somaiê e a esquizoanálise; eu percebo uma íntima confluência, ou mais, a somaiê opera como uma esquizoanálise, e acho que teria mto a ser enriquecida pelo maquinário conceitual do Deleuze e Guattari. Me parece, aliás, que tanto a gestalt e a biologia do conhecer tem uma ressonância esquizoanalítica bem forte; e, concordando com o que vc colocou, a influência reichiana insere uma dissonância parcial. Acho importante frisar que o Reich é uma das influências sobre o trabalho do Deleuze e Guattari – aliás, sobre quase tudo que foi feito nesse campo psi durante os 60/70.
    A diferença principal entre a esquizoanálise e Reich é que Reich opera sobre uma base pulsional – uma “energia” básica do desejo que pode ser encaminhada pra cá ou pra lá, sublimada aqui ou ali. Deleuze e Guattari entram com uma proposta que remove a metáfora energética, procedem uma crítica dessa energia “indiferenciada” que pode ser canalizada (recomendo o capítulo sobre psicanálise do livro do Guattari e da Rolnik sobre esse ponto, no “Cartografias do Desejo”); com isso, some a perspectiva de uma “libertação” no sentido de “desregulação”. Segundo Deleuze e Guattari, nenhum investimento de desejo opera fora de máquinas sociais, simbólicas, biológicas, e sem essas máquinas, não há uma energia desejante em estado “puro” à qual se almejar. Daí, que os “circuitos” de desejo param de serem vistos como intrinsicamente restritivos ou repressivos e passam a ser vistos como produtivos (mesmo quando produtores de repressão). (dá pra puxar muito Foucault daí). Daí, trata-se menos de “desconstruir estruturas quaisquer” em vias de libertar o desejo, e sim desconstruir especificamente a estratificação (neurose) e simultaneamente construir redes rizomáticas de desejo, outras regras e leis e máquinas e conceitos aonde o desejo vai funcionar.
    Em contrapartida, a esquizoanálise e Reich tem uma confluência muito fundamental também, e é precisamente a construção do Reich de que a libido é investida dentro de uma dimensão sóciopolítica.
    À parte disso tudo… eu quero te pedir que vc me passe uma referência ou orientação de onde encontro (livro, site, o que for) as críticas de Perls a Reich e mais sobre esse antagonismo da gestalterapia e a análise de caráter. Acho que aí tem coisa (e pelo que me parece, essa incompatibilidade entre a gestalt e a análise de caráter é um ponto central em seu trabalho – acho inclusive que, se for pra vc mudar alguma coisa nele, rola de dar uma expandida nisso, reapresentar essa incompatibilidade de forma mais extensa, inclusive tornando-a passível de crítica a alguém que não domina ambas as perspectivas!)
    Abraços,
    Iago

    • fabioveronesi Says:

      Fica claro p mim o qto vc tem maior autoridade p falar tanto sobre esquizoanálise qto sobre SomaIê. Diante disso: quem sou eu p falar qq coisa sobre sua perpectiva de uní-los? Só me dá sentido falar que unir diferentes métodos em um só não é somente encontrar o link entre eles, mas principalmente fundí-los – criar uma nova ferramenta a partir de duas (ou mais).
      Sobre o q vc perguntou. Essas informações estão na autobiografia de Perls – “Escarafunchando Fritz, dentro e fora da lata do lixo” (tem uma página quase toda dedicada a descer o cassete nas terapias reichianas pq elas trabalham com catarse). O outro livro é um de artigos da Gestalt, tem uns 4 ou 5 artigos q são do próprio Perls e os outros são dos bambambans da Gestalt terapia (não lembro do livro agora). Nuns 3 artigos desses do Fritz Perls ele comenta sobre Reich e/ou terapias reichianas. todos os comentários são radicalmente contrários. Eu achei meio chutómetro do Perls, sem base, sem consistência, mas de qq forma fica clara sua oposição. Vou ter q pegar esses livros, reler, p achar os trechos exatos e as páginas onde estão. vc tem razão ao falar q faltou eu colocar isso no trabalho. Eu tive tudo isso em mãos, encontrei esses 2 livros em diferentes momentos ao longo dos sete anos em que fiquei escrevendo essa Crítica à Soma. Vou fazer isso, mas agora estou com outros interesses´diferentes d elaborar melhor essa crítica q está posta. Mas é uma sentada numa biblioteca e uma conversa com uma fessora de Gestalt camará q me orientou e eu acho isso procê. Se vc conseguir achar antes, com esse rumo q tei…

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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