Omissão de parte da obra de Reich para articulação do falso entendimento de que os laços entre socialismo libertário e psicologia foram criados por Roberto Freire

Há uma redundância no fato de Freire apresentar sua técnica como “uma terapia anarquista, reichiana e em grupo”. Quero dizer, qualquer terapia de grupo que se pretenda reichiana é, obviamente, anarquista ou socialista libertária. Freire, de certa forma, dá a entender que foi ele que colocou esse “ovo de Colombo” em pé.

Essa articulação de Freire fica clara para quem se aprofunda na leitura de toda obra de Reich e percebe que Freire, ao fazer sua releitura de Reich nos livros SOMA 1 e SOMA 2 – onde expõe as bases teóricas e práticas da sua somaterapia – omite ou simplesmente não resgata a obra de Reich de maior importância para quem pretende pesquisar os entrelaçamento entre psicologia e ideologias político-econômicas: o livro A psicologia de massas do fascismo. Nele (mais especificamente nos capítulos IX – “A massa e o Estado”, cap. X – “As funções biossociais do trabalho”, cap. XI – “Dar importância vital ao trabalho” e cap. XIII- “A democracia natural do trabalho”) Reich deixa claro que o único meio de produção em grupo que pode ser profilático de neuroses está baseado no socialismo libertário e na autogestão. Nomeia como “Democracia do Trabalho” seu entendimento do socialismo prático, voltado para uma produção coletiva autogestiva.

Cito Roger Dadoun – um grande biógrafo de Reich, em seu livro Cem flores para Reich – tratando sobre o que Reich chamou de “democracia do trabalho”:

O exercício da democracia do trabalho elimina de imediato e radicalmente qualquer figura de Chefe, seja qual for a forma em que apareça, desde os Fuhres e Guias Supremos até o menor dos ‘pequenos chefes’, providos de algum vestígio de poder; é “absolutamente incompatível com o sistema de partidos políticos” e deve traduzir-se pelo rápido enfraquecimento e depois pelo desaparecimento completo da instância centralizada, totalitária e repressiva por excelência – o Estado. “A supressão da política e, conseqüentemente do Estado, era precisamente o objetivo dos fundadores da política socialista”.

Essas idéias são a essência do anarquismo ou socialismo libertário.

Roberto Freire, ao apresentar a teoria que embasa a idéia de unir terapia e anarquia, o que faz no último capítulo de seu livro SOMA – Uma Terapia Anarquista – volume 1, cita anarquistas clássicos como Proudhon, Bakunin, Stirner, Malatesta, Vóline e Guérin, mas não redige uma só linha sobre as idéias de autogestão de Wilhelm Reich nomeadas como “Democracia do Trabalho”.

Nesse mesmo livro, ele se afirma “díscipulo de Wilhelm Reich” logo no primeiro parágrafo do primeiro capítulo, ou seja, reichiano à princípio. Ao longo de todo livro ele apresenta ou resgata somente as obras de Reich: A Função do Orgasmo, A Revolução Sexual e Análise do Caráter. Na última frase do cap.11 (pg. 114), Roberto Freire afirma:

Graças a Reich surgiu a Bioenergética e foi feita a aliança entre Psicologia e Biologia. Resta completar e ampliar essa aliança, acrescentando a elas a Política, coisa a que se propõe a Soma, (…)”

Essa afirmação só pode se sustentar com o desconhecimento ou a omissão de parte da obra de Reich. Para quem não se restringe à revisão de Roberto Freire sobre Reich, fica claro que foi Wilhelm Reich e não Roberto Freire quem primeiro fez a aliança entre Psicologia, Biologia e Política dentro de uma visão socialista libertária.

Entendo que Freire não cita em seus escritos o livro A psicologia de massas do fascismo não por ignorância ou por achar irrelevante para uma terapia reichiana essa parte fundamental da obra de Reich, mas porque com ela se completaria o trabalho que o próprio Freire se propõe fazer trazendo o anarquismo como suposto elemento novo.

 

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4 Respostas to “ULTRAPASSADO 3 – Omissão”

  1. Iago Says:

    Estranho mesmo, isso. Talvez por não ter lido os livros teóricos da SOMA, sempre assumi que a associação entre política e neurose tivesse vindo direto do Reich, e que o Roberto Freire tivesse entrado com outras modificações ou ampliações nesse aspecto. Pessoalmente isso não me faz diferença, nem faz pro Reich hahah, mas é uma autopropaganda bastante insincera da parte do Freire. Agora… eu esqueci de citar em meu comentário no cap. de “Lutoterapia” esse lance do Reich. Queria saber que vc pensa a esse respeito, da luta política e da emancipação corporal e psíquica; to com dificuldades de distinguir a sua crítica ao envolvimento político da somaterapia do envolvimento político do próprio Reich. Em todo caso, curti o livro; eu tava com sede de uma crítica a esse nível mais teórico sobre a soma. Eu tenho as minhas reflexões a esse respeito, mas pretendo antes de tudo terminar a terapia e maturá-las com mais leituras. (:

    • fabioveronesi Says:

      OIAGO!
      Teus comentários todos foram ricos e me desafiaram, instigaram à reflexão dos pontos q vc trás. De todos escolhi esse p responder primeiro pq nele vc levanta a bola de uma questão central sobre o envolvimento político da Soma e do próprio Reich.
      O q eu acho é q o próprio Reich, apesar de genial, é limitado tb. É fruto das ânsias de seu tempo, q encontram paralelo com as ânsias do nosso agora, mas tb são simplesmente ultrapassadas p muitas questões atuais. Apesar de eu admirar e estudar Reich um monte, não deixei de ouvir as vozes q disseram q ele ganhou certa megalomania e criou certo grau de fanatismo entre seus seguidores. Essa informação não chegou a mim pelas vozes das forças conservadoras de direita q difamaram e perseguiram Reich toda sua vida, mas de Alexander Lowen, q o conheceu, foi seu aluno, fez terapia com ele, se ausentou um período pq foi fazer medicina na Europa (p orientação de Reich) e qdo retornou aos Estados Unidos, ao se reaproximar de Reich, não concordou com o fanatismo de seus seguidores e com o tom do próprio Reich. Essa foi talvez sua desculpa p se afastar e criar seu próprio método terapêutico – a Bioenergética, mas de qq forma deve ter algum sentido.
      Entende onde quero chegar? – o problema não são os “caras” e sim os “carianos”. O problema não é o Freud, mas os freudianos. Não é o Yung, mas os yunguianos,e por aí vai. Há tempos não me defino mais como “reichiano”. Não concordo inteiramente com Reich, não engulo com casca e tudo, questiono. Não sou, por exemplo, a fim d bater de frente com o sistema, ser preso e morrer numa prisão federal como ele. Admiro o cara pela sua radicalidade, mas eu não sou ele. O que questiono nos escritos é essa coisa de “thurma da Soma” q havia forte na época de Freire e que encontra plena possibilidade dentro de uma base reichiana. Isso não muda minha opinião contrária sobre o perigo de misturar esse ingrediente com processo terapêutico. Era um bando de “freireanos” e os mais radicais eram os somaterapeutas.
      Não tenho conhecimento suficiente sobre o tanto q o Rui modificou tudo isso no desenvolvimento da metodologia do SomaIê, principalmente pq ele misturou com Maturana o que dá uma forte pitada de humanização ao tempero. Mas, tenho conhecimento sobre o q era a Soma nos primeiros anos deste século. Entre os radicais, o Rui era o mais radical. Seu amor por Freire tb era radical. Acho q ele foi o q menos questionou o método (quero dizer os outros fizeram isso sem assumir nem p o Freire, nem p si mesmos). Mas, depois do rompimento, suspeito que algo tenha se quebrado p o Rui da imagem imaculada de Freire, e acredito mesmo que o método SomaIê pode não ter herdado essa característica. Cabe tb analisar a sutileza como muitas vezes se apresentam as obrigações, os “tem que” se transformar, revolucionar, etc. “Tem que” é dieta (por isso começa sempre na segunda feira) e não conscientização. A mudança acontece rápido e radical, mas não se sustenta. Por isso vc encontra pessoas q fizeram Soma há muitos anos atrás completamente retroagidas em seus estados neuróticos.

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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