Associação de luta, terapia e revolução social

Freire afirma que necessita associar seu método terapêutico a algum tipo de luta para que não se percam seus efeitos sobre os clientes. Acredita que há uma luta constantemente travada com o meio social, implícita à manutenção de nossa originalidade. Se não lutamos permanecemos neuróticos. Se não lutarmos não nos manteremos não- neuróticos por muito tempo.

Quero dizer simplesmente que viver é lutar, mais nada. E isso é tudo porque o inverso é ainda mais verdadeiro: lutando é que se vive. (…) Descobri na Capoeira a forma ideal de luta de que necessitava para complementar meu método terapêutico.” (pg 160 do livro SOMA 2)

Associar seu método terapêutico à uma luta é uma idéia que nasce do desejo de Roberto Freire de associá-la também à uma revolução social. A crítica a essa mistura necessita ser analisada em dois aspectos: o individual e o coletivo.

1- Aspecto individual

O desejo individual de fazer terapia da pessoa que a busca é misturado, no discurso da somaterapia-de-Freire, à necessidade de efetuar uma revolução social que diminua a exploração e a miséria humana, o acúmulo de capitais, a devastação do planeta, etc. Na prática vai se criando um ambiente onde a pessoa “tem que” efetivar transformações em sua vida, já que todos percebem a clara necessidade de efetuarmos mudanças sociais. É preciso haver revolução pessoal para haver revolução social.

Com as experiências vividas em outras linhas terapêuticas percebi que a chamada “resistência à terapia” ou “resistência à mudança” deve ser respeitada em certo âmbito que preserva uma estrutura psicossomática de proteção que teve utilidade histórica. Também a resistência deve ser elemento que se acrescente ao trabalho terapêutico e não que se descarte, ela revela parte do que se procura saber. As pessoas não “tem que” fazer terapia. Pelo contrário, a terapia acontece só e somente só a pessoa quiser, ela é a geradora do movimento, o terapeuta é apenas um dos muitos auxílios que a pessoa busca e encontra quando e se quiser se entender melhor e modificar seu jeito de ser.

O movimento que Roberto Freire apresenta como “revolucionário”, principalmente com relação à sua forma, é um modelo datado, característico do início da segunda metade do século passado que, na América Latina, foi quem ofereceu resistência às ditaduras militares que se instalaram nos governos de quase todos os países. Fazer revolução nessa época era sinônimo de tomada do poder através da luta armada, de clandestinidade, de guerrilha. Muitos companheiros revolucionários foram presos, torturados, mortos ou exilados. Tudo isso deu ao discurso revolucionário dessa época, um tom mistura de urgente, dramático e panfletário. Esse tom, quando transportado para o setting terapêutico, gera um clima de tensão pela exigência de transformações na vida dos clientes. A introdução de uma luta amplia essa tensão. Essa mistura, unida a processos de desencouraçamento, dá grande abertura a casos de surtos esquizofrênicos.

Também se entrelaça nessa questão, uma outra mais ampla, referente a conhecidas críticas que se fazem às terapias reichianas em geral, ou seja: um certo grau de “desajuste social” que fica como resquício de quem é fortemente influenciado pelas idéias de Reich e o fato de algumas terapias reichianas trabalharem com métodos catárticos. O estudo e vivência do universo reichiano trás a percepção de que nossas dificuldades sexuais e de relação com o prazer, inclusive o prazer de viver, tiveram origem na criação que recebemos no processo de adaptação à sociedade. Quando nascemos encontramos prontas as regras sociais que regem o comportamento considerado normal nessa sociedade, isso justifica ao adulto que se apercebe dessas questões, colocar na sociedade a culpa de suas dificuldades pessoais. Acontece que para o adulto não é mais válido afirmar-se como vítima da sociedade, mas sim como parte integrante dessa sociedade, co-respoonsável, e que as maiores dificuldades em libertar-se para o prazer são da própria pessoa. Não adiantam bodes expiatórios de qualquer espécie, a dificuldade se ultrapassa na busca do que nos é interno, inconsciente. Querer mudar a sociedade de forma radical é escapatória possível para não perceber a necessidade de pulsante de mudar a si mesmo. Enquanto brigamos com a resistência externa de mudança social que se nos apresenta pela polícia oficial e pela polícia de costumes, deixamos de nos aperceber da resistência à mudança pessoal, à transformação do jeito de ser, das caracterialidades. Atuar de forma panfletária para resolução dos problemas do mundo é uma estratégia eficiente que a resistência à terapia encontra para desviar o trabalho terapêutico de seu foco principal. O argumento de que é preciso mudar o mundo para que eu possa exercer minha mudança em paz, sem ser julgado, pré-conceituado ou agredido é de certa forma real, tem coerência e razão de ser. Mas é exatamente em questões reais que a resistência encontra seus melhores argumentos. Uma pessoa que se transforma abala todas as relações que tem com outras pessoas, toda sua rede social. Algumas pessoas também irão se transformar porque querem preservar a relação e ao perceber a mudança da/o amiga/o, namorada/o, filha/o, etc. propõe-se a mudar sempre irá perder relações e

As descobertas sobre a couraça neuromuscular do caráter criaram a possibilidade do desenvolvimento de poderosas ferramentas de transformação psicossomática. Logo após a morte de Reich, houve um momento (décadas de 60 e 70), em que foram pesquisados, de forma aleatória, vários tipos de exercícios e técnicas desencouraçantes. Tratava-se de um universo ainda pouco explorado tanto em suas possibilidades quanto em suas conseqüências. Havia também, me parece olhando de hoje, nos seguidores da obra de Reich, principalmente os chamados neo-reichianos, a necessidade de provar a validade das teorias e dos novos conceitos criados por Reich e que as novas metodologias terapêuticas que estavam surgindo a partir das técnicas deixadas por ele, davam resultados concretos.

Hoje se sabe, porque está empiricamente comprovado com mais de 50 anos de experiências em dezenas de diferentes técnicas terapêuticas que se basearam nesse conceito para criar suas metodologias, a existência do fenômeno nomeado por Reich de “couraça neuromuscular do caráter” e de suas relações com a rede de distribuição de energia vital e com as contenções emocionais.

O desencouraçamento é um fenômeno psicossomático que envolve mobilização muscular, descarga de certa quantidade de bioenergia para as extremidades e sentimento de emoções contidas, capaz de provocar abalos na estrutura do caráter. É certo que rapidamente o Ego reorganiza as estruturas caracteriais, mas todo processo de desencouraçamento é uma perca de controle e de limites do Eu.

A couraça neuromuscular do caráter é uma proteção que surge naturalmente. Ela nos protege de sentir emoções que emergem nas situações que vivemos, cotidiana e historicamente falando. Ela nos assegura poder enxergar a realidade porque podemos conviver com os nossos sentimentos diante dela. Portanto, o problema não está na couraça em si, mas na sua cronificação que acaba nos protegendo de sentir todo tipo de emoção – tanto angústia quanto amor e também diminui consideravelmente o nosso pulsar orgânico, nosso ânimo, nossa motilidade, gestualidade e expressividade em geral. Essa contenção constante consome bioenergia, energia vital roubada da Vida, desviada para ser a fonte energética que alimenta as neuroses.

Reich nunca afirmou que o ser saudável era o ser completamente desencouraçado, mas sim o ser que tem couraças mutantes, situacionais, que permitem a plena entrega emocional quando isto é possível. A cronicidade das couraças está ligada, por exemplo, a nossa dificuldade de amar mesmo quando confiamos totalmente na pessoa com quem nos relacionamos, quando não há desculpas para não amar, a não ser o medo da entrega.

Alguns terapeutas, como Friederick Perls da Gestalterapia, criticam terapias neo-reichianas como a Bioenergética de Alexander Lowen, por desperdiçarem em apenas um instante, com seus processos catárticos de desencouraçamento, precioso material emocional com o qual Perls preferia trabalhar minuciosamente durante meses. Há também uma linha de terapeutas neo-reichianos, como David Boadella, que se colocam claramente contra o método catártico.

Contra ou a favor, a verdade é que quando trabalhamos com exercícios bioenergéticos estamos mexendo no equilíbrio psicossomático. Trata-se de poderosa ferramenta de transformação do Caráter, muito útil para o trabalho terapêutico. Exatamente por isso ela deve ser usada com a ótica voltada aos interesses do cliente e não a interesses externos sejam eles quais for. Nem mesmo os interesses de uma revolução social que irá “melhorar o mundo”. Unir processos de desencouraçamento a discursos revolucionários de tom panfletário e à prática obrigatória de uma luta não é, ao meu ver, uma mistura saudável. Esse tom presente no discurso terapêutico de Roberto Freire e reproduzido por seus assistentes, associado ao efeito desencouraçante dos exercícios, podem ter sido fatores que contribuíram para os casos de surto esquizofrênico havidos com clientes da somaterapia-de-Roberto Freire. Isso, porém, não foi devidamente analisado dentro da equipe de somaterapeutas formados por Freire.

Durante meus cinco anos de formação pude observar que esse tom revolucionário romântico foi sendo gradativamente amenizado pelos somaterapeutas dentro dos grupos. Ao meu ver, essa modificação deveria ter sido explicitada e trabalhada nos encontros de supervisão e formação, junto a Roberto Freire. Havia nesses encontros, porém, um respeito exagerado à figura e à obra do mestre que impedia o livre fluir de críticas mais contundentes à metodologia por ele desenvolvida.

Tal “respeito” permeava também a obra do próprio Reich. Só tive acesso às críticas que apresentei sobre as técnicas reichianas fora do ambiente de formação da somaterapia-de-Roberto Freire, através de pesquisa própria em busca de resposta a essas importantes questões.

2- Aspecto coletivo

O segundo ponto importante de análise dentro da crítica à mistura de luta, terapia e revolução social é o de sua influência coletiva.

Freire acreditava que com seu método terapêutico ele iria criar aos poucos, conforme mais e mais pessoas passassem por ele, uma nova sociedade. Para levar a cabo essa idéia existia dentro da somaterapia-de-Roberto Freire uma cultura de agrupar em grandes encontros os clientes dos diversos grupos de terapia que ocorriam nos diferentes estados do Brasil, assim como muitos ex-clientes, em encontros nacionais periódicos. Eram comuns festas e eventos promovidos pela “galera da Soma”. Também era incentivado que clientes e ex-clientes vivessem em comunidades alternativas de moradia. Esse incentivo era permeado pela forte crítica ao modelo tradicional da família patriarcal burguesa, presente na obra de Reich, completamente absorvido por Freire. A dinâmica dessas comunidades era supervisionada pelos somaterapeutas ligados ao Coletivo Brancaleone que eram freqüentemente chamados para participar de reuniões dentro das comunidades. Também eram promovidas sob a supervisão dos somaterapeutas, reuniões mensais com todas as comunidades para discussão e troca de informações sobre os problemas enfrentados na convivência cotidiana.

Permeava tudo isso a utopia de criar-se uma nova sociedade.

Na prática, porém, aconteceu que o processo terapêutico passou a ser instrumento de alienação à medida que depois que se passava por ele a pessoa só encontrava “seus iguais” entre as pessoas que também estavam passando ou já haviam passado pela mesma experiência. Adicionado a isso está o fato de que ocorria um certo desenvolvimento das inteligências intra e inter-pessoal, da capacidade de leitura corporal, do entendimento dos processos de encouraçamento, etc. de quem passava pela terapia. Tudo isso contribuiu para o que era chamado de “turma da Soma”.

Havia um certo hermetismo do social que se estabelecia entre as pessoas que fizeram ou estavam fazendo Soma com relação às outras. Era comum que pessoas “de fora” denominassem quem já havia feito a somaterapia-de-Roberto Freire como sendo pessoas da Soma. Exemplo de vida desse hermetismo social são os próprios somaterapeutas – trabalham, são amigos e namoram quase que exclusivamente com pessoas que fizeram Soma, tanto que todos casaram e tiveram seus filhos com “pessoas da Soma”.

Assim, pessoas da Soma moravam com pessoas da Soma, eram amigas de pessoas da Soma, namoravam pessoas da Soma, viajam para outros estados e se hospedavam em casas de pessoas da Soma, iam a festas da Soma, participavam dos encontros regionais e nacionais da Soma, praticavam a capoeira da Soma, etc., etc., etc.

Finalmente o movimento que pretendia revolucionar a ordem social através de um processo terapêutico associado a uma luta, acabou por se transformar em sinônimo de facção, como um clube ou uma seita da qual se faz parte. Acentuando ao invés de diminuindo, as diferenças entre os grupos que precisam se unir para realizar juntos uma revolução social, alimentando preconceitos e confusões. Quem mais se prejudicou com isso foi o desenvolvimento do próprio método terapêutico que deveria ter sido preservado dessa mistura.

A essência desse preconceito pode ser percebida no trecho abaixo, onde Roberto Freire discorre como a sua Somaterapia é praticamente a única que considera o aspecto político da obra de Reich, colocando seu método terapêutico acima das outras terapias:

“Os próprios discípulos de Reich, como Lowen e Perls, por exemplo, com suas bioenergética e gestalterapia procuraram esquecer e rejeitar as descobertas de seu mestre nesse campo, despolitizando seus métodos terapêuticos e pedagógicos. (…) Em última análise, a maioria dos psicólogos de hoje que se dizem reichianos em sua formação e/ou metodologia de trabalho deixaram de ser revolucionários como era seu mestre, e colocaram-se a serviço da reação, do conservadorismo e da adaptação… Claro, considero isso uma traição. Porém, consola-me, até certo ponto, tratar-se de uma traição inócua e inútil. Sim, porque Bioenergética e Gestalt sem Reich tornam-se terapias da moda, cosméticas, reformistas e protéticas, uma vez que, como o próprio Reich definiu e os anarquistas sustentam, a libertação pessoal só se faz no social de forma revolucionária, e a libertação social tem que passar pela pessoal também de forma revolucionária.” (pg. 48 do livro Soma vol. 2)

Percebe-se também, no final do parágrafo, o que foi tratado no item de análise sobre o aspecto individual. Obviamente os dois se entrelaçam. Importante é perceber os preconceitos disfarçados.

“Essa forma radicalmente nova de amar é a que propõe o socialismo libertário. Isso, nem o capitalismo burguês e nem o socialismo autoritário conhecem. Daí a vocação antiautoritária da Soma e o seu desejo de formar novos terapeutas que já conheçam, que já vivam e reproduzam essa forma de amar, de criar e de lutar. Claro que ao fim de uma Somaterapia não chegamos ao fim de nossa estrada de libertação. Fomos apenas liberados e nos colocamos no caminho certo …” (pg. 48 do livro Soma vol. 2)

Na prática dos somaterapeutas dentro dos grupos, depois que Roberto Freire abandonou o trabalho direto como terapeuta e passou somente a supervisionar e, mais ainda, depois de sua saída definitiva, essa união entre terapia e revolução social foi se tornando cada vez mais frouxa, menos radical. Apesar dos somaterapeutas estarem modificando a metodologia freireana, isso não foi constatado, verbalizado e analisado junto ao seu criador, ou seja, não se tornou consciente e continua a existir na metodologia da SOMA.

 

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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3 Respostas to “qCAPOEIRA 3 – Lutaterapia”

  1. Iago Says:

    Falando por mim, e não pela soma (claro), eu acho indissociável a questão sociopolítica; minha reflexão a esse respeito é esquizoanalítica: a produção de édipo, chamada estratificação (na qual podemos ler bem fácil as couraças musculares) é um processo coletivo e socio-histórico; seu desmonte passa, necessariamente, pela desestratificação CONECTADA a linhas de fugas com essa dimensão sócio-histórica. Tirar isso da soma pra mim seria tirar o essencial, porque aí ela se converteria, ao meu ver, em mais uma terapia alternativa dessas da nova era, sem a radicalidade necessária pra se inflingir não só uma mudança no corpo (e mente) do terapeutizado, mas nos sistemas que ele forma (e pelos quais é formado) em sua relação com as estruturas autoritárias: trabalho, escola, estado, etc. Tirar essa dimensão de radicalidade pra mim seria comodificar a soma, ao meu ver.
    Por outro lado, acho que se este conflito está surgindo da forma que você descreveu, é algo a ser discutido e inclusive revista a abordagem, porque pelo que entendo da teoria por trás da coisa esta luta sóciopolítica NÃO precisa passar por auto-sacrifício de forma alguma. O Rui já colocou isso claramente n vezes. Talvez fosse diferente na época do Roberto Freire, ou com o Brancaleone. Mas eu não percebi ainda um autoritarismo nesse sentido no meu grupo de terapia.

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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