Antes de tudo, é preciso deixar claro meu respeito e admiração por Roberto Freire. Ele é um desses homens cuja obra de vida faz extrema diferença no mundo e, por isso mesmo, vale despender tempo e energia no estudo e análise de suas idéias, práticas e teorias metodológicas. Para tanto é necessário um olhar crítico que compense a admiração que a figura de Freire provoca, para que não torne cego quem enxerga a luz de sua genialidade.

Minha experiência para falar sobre a Somaterapia-de-Roberto Freire ou “SOMA”, está na vivência de seis grupos que fiz: um como cliente e cinco no processo de formação para somaterapeuta trabalhando como assistente e co-terapeuta dos somaterapeutas Rui Takeguma, Jorge Goia e João da Mata, nas cidades de São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis, sob supervisão periódica de Roberto Freire. Também atuei sozinho como somaterapeuta em um grupo que ocorreu em Florianópolis 2003/2004 – o primeiro e último em minha breve carreira de somaterapeuta, pois, pelos motivos aqui expostos, desenvolvi um método terapêutico próprio, baseado em minha leitura pessoal da obra de Wilhelm Reich, em contrapartida com o recorte que Roberto Freire fez ao criar a “SOMA”.

Nesse período – de 1997 a 2003 – em que estive no Coletivo Brancaleone, participei do momento em que Rui Takeguma rompeu com o Coletivo e criou a SOMAIÊ e, ao mesmo tempo, Roberto Freire se afastou definitivamente das atividades do Coletivo, decretando sua aposentadoria, de forma a “não tomar partido” naquela cisão, afirmando que as duas vertentes bem representavam a técnica terapêutica por ele criada.

Também nesse período se formou Vera Schoeder – a última somaterapeuta formada diretamente por Roberto Freire, da qual também recebi formação.

Fui o primeiro somaterapeuta que se formou sem ter trabalhado diretamente nos grupos com Roberto Freire e sem ter tido Freire como meu terapeuta. Ao mesmo tempo, era o único a ter recebido formação dos quatro somaterapeutas que Freire havia formado antes de se afastar da linha de frente do trabalho de formação dentro dos grupos, passando somente a supervisioná-la em reuniões periódicas. Nessa fase de transição, a minha formação foi a primeira que aconteceu sob responsabilidade direta do Coletivo e indireta de Roberto Freire. Havia dificuldade do Coletivo em ultrapassar a ausência da figura de Freire, que era um excelente pedagogo, homem de forte influência, com grande capacidade de formar novos somaterapeutas. Depois de Freire, o Coletivo não formara ninguém já havia sete anos. Durante esse período vi mais de uma dezena de pessoas iniciarem o processo de formação e desistir dele em algum ponto do caminho. Alguns no início, outros depois de um ou dois anos de dedicação e alguns na fase final, no ponto de assumirem o seu primeiro grupo. Tentei chamar a atenção do Coletivo para esse fato e mostrar que havia necessidade de revisão do processo de formação do somaterapeuta, bem como de estruturação do método com uma proposta crítica que pudesse melhor desenvolvê-lo.

São muitas as técnicas desenvolvidas a partir da obra e da influência de Wilhelm Reich, chamadas de pós e neo-reichianas. A Somaterapia de Roberto Freire é uma delas. No primeiro parágrafo do primeiro capítulo do livro Soma vol. 1 – que define as bases teóricas de sua terapia, Roberto Freire se afirma “um discípulo de Wilhelm Reich”. Na pág. 79 do mesmo livro encontramos: “No campo propriamente psicológico, em última análise, a Soma tem origem no que se convencionou chamar de pesquisas neo-reichianas…”. No livro Soma 2 – que define a prática do método – na pág. 36, encontramos: “Sempre divulguei ao máximo que a Soma teve sua base científica em Wilhelm Reich …”.

Entendo, assim, que qualquer crítica coerente a respeito da Somaterapia-de-Roberto Freire deve se estabelecer dentro do universo reichiano.

Há mais de dez anos estudo de forma autodidata a vida e obra de Wilhelm Reich. Além da formação para somaterapeuta com o Coletivo Brancaleone, fiz formação em massoterapia bioenergética com Ralph Viana, formação com Leonard Orr sobre a técnica respiratória conhecida como Renascimento, o curso Vibrato Crescente de vozterapia reichiana com Sonia Prazeres e o curso de Grounding do Instituto Reich de São Paulo. Fiz também o curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina onde, apesar de encontrar pouco sobre Reich, entrei em contato com muito do que lhe cerca, principalmente com a Psicanálise – base a partir da qual Reich lança seu vôo para Análise do Caráter, passando da análise do conteúdo para a análise da forma.

Cito isso para localizar que minhas críticas nascem de uma visão do universo reichiano diferente da apresentada por Roberto Freire em seus livros e nas influências reichianas que trouxe para seu método terapêutico. Nesse sentido pretendo mostrar como o recorte e a utilização que Freire faz da obra reichiana, acaba por ir diretamente contra as práticas terapêuticas e teorias desenvolvidas pelo próprio Wilhelm Reich em dois pontos principais: a importante questão do manejo da transferência e a obrigação da prática constante de um exercício suposto pleno desencouraçante.

Em 2003, concluída minha formação em Somaterapia, elaborei um texto de 18 páginas ao Coletivo Brancaleone contendo a essência das críticas aqui apresentadas. Era fundamental para mim, que estava assumindo o trabalho de somaterapeuta, discutir esses pontos com eles. Minha intenção era mantê-las estritamente dentro do âmbito interno do Coletivo, mas aconteceu de serem tão mal recebidas que provocaram o rompimento radical dos laços de trabalho que nos uniam até então.

Persisti sozinho neste projeto porque era fundamental para o meu entendimento e superação pessoal das confusões emocionais deixadas por anos de “Somaterapia”. Também era necessário ultrapassar um ponto no qual estancara minha terapia – o padrão de relacionamento com as mulheres, algo bastante complexo para um homem, que se entrelaça de forma decisiva com os afetos transferenciais que surgem quando esse homem se propõe a ser terapeuta. Eu precisava de ajuda, senão não me seria possível ser terapeuta, mas quanto mais me aprofundei no estudo da SOMA, melhor percebi que ela não poderia me ajudar. Eu poderia fazer décadas de Somaterapia que não haveria progresso em meu estancamento. Essa percepção era ainda intuitiva, mas foi suficiente para me levar a outras formações reichianas e ao curso de Psicologia atrás de respostas. Assim, aquele primeiro documento se tornou um esboço que, acrescido de uma faculdade de Psicologia e dez anos de experiência como terapeuta reichiano, evoluiu para este trabalho escrito.

Nesse período criei um método terapêutico próprio, utilizando o conhecimento das técnicas nas quais me formei e minha pesquisa autodidata sobre as práticas e teorias do universo reichiano. Ele se chama ABCΨΣ, nome que resume os três eixos centrais da metodologia: Autogestão, Bioenergética e Caracteriologia, bem como sua base psicossomática.

Entendo que as críticas são parte imprescindível da evolução dos métodos terapêuticos. No caso de Freud e a Psicanálise, por exemplo, seus críticos são importantes figuras como Reich, Jung, Perls, Moreno, etc. Eles desenvolveram técnicas próprias, originais e inovadoras a partir de críticas à Psicanálise: Orgonoterapia, Gestalt terapia, Psicodrama,… Esse movimento serviu para aumentar a fama e o prestígio da Psicanálise e não para destruí-la. Mesmo Lacan, considerado o segundo depois de Freud em importância para o desenvolvimento de teorias e práticas psicanalíticas, fez fortes críticas a Freud. Exatamente por ser capaz de, sem deixar de ser psicanalítico, afastar-se de Freud a ponto de poder criticá-lo, é que Lacan conquistou esse lugar dentro da Psicanálise.

Lacan lança uma lente de aumento sobre um fenômeno que Freud nomeou, mas não dedicou maior atenção, ou seja, a chamada “contratransferência”. Essa negligência, segundo Lacan, denuncia o protecionismo de Freud com relação ao psicanalista, deixando um furo no método terapêutico por não dar atenção a uma importante forma de resistência à terapia. Lacan mostra que o afeto transferencial do terapeuta em relação ao terapeutizante não é “contra” a transferência. Ele é a própria transferência. E transferência é mútua. A diferença está somente em que a transferência do terapeuta é representante da resistência do terapeuta a sua terapia. A resistência do terapeuta entra em acordo com a do terapeutizante e cria-se o pacto de resistência do grupo (de dois) ao processo terapêutico de ambos.

Reich, ao jogar uma lente de aumento sobre o fenômeno da “transferência negativa”, faz algo paralelo à Lacan, ou seja, dá atenção a algo que Freud nomeou, mas não dedicou maior atenção. Essa negligência de Freud, segundo Reich, denuncia sua postura ideológica que, apesar da grande revolução social que a Psicanálise provocou, tem forte resquício moralista. Tal fato também abre espaço para falhas no método terapêutico que Reich busca apontar e superar.

Percebe-se que ambos criticam Freud, mas não são ingênuos de descartar suas descobertas sobre a Transferência. Pelo contrário, suas criticas se estabelecem a partir do que Freud deixou em aberto sobre o assunto. A diferença entre eles é que Lacan aprofunda a Psicanálise ampliando o estudo sobre a linguagem, o universo dos signos e significados. Já Reich se afasta da Psicanálise porque entra no universo do Corpo, dando maior importância à forma do que ao significado.

Entendo que, apesar de sua genialidade, Roberto Freire é datado. Esse entendimento, é claro, se estende ao próprio Wilhelm Reich. O estudo de suas obras revolucionárias deve considerar o ambiente histórico que originou suas ânsias porque eles são frutos de suas épocas, como todos nós. Como poucos, porém, são homens que vigorosamente semearam o campo das influências sobre os fazeres, saberes e dizeres cotidianos com sementes de liberdade. Exatamente por admirá-los, respeitar seu trabalho e acreditar no seu desenvolvimento é que não fugi às críticas sobre suas metodologias terapêuticas que surgiram em meu estudo sobre elas. Isso para mim nunca foi incoerente, pelo contrário, serviu de combustível para ir atrás de informação e formação que pudesse esclarecer o que estava obscuro.

Espero que este trabalho, entre outras coisas, leve as pessoas à leitura dos textos técnicos de Roberto Freire – os livros Soma 1 e Soma 2 – onde ele define as bases teórica e prática de sua metodologia terapêutica. Há neles muita informação de qualidade que está sendo pouco explorada, inclusive pelos próprios somaterapeutas, que carecem de uma leitura mais minuciosa e analítica das obras científicas de Freire. Não havia essa prática dentro das reuniões de formação. Os livros Soma 1 e 2, considerados leitura obrigatória, eram dados como lidos por todos e pronto. Não se entrelaçavam os relatos dos casos atuais com as teorias e práticas contidas nos livros. Não se estudava coletivamente, se debatia, se pesquisava ou se citavam trechos desses livros de Freire. Acredito que neles esteja contida a gênese de muitas questões metodológicas que necessitam de investigação, revisão e transformação, não só para atualização, mas para sobrevivência da metodologia criada por Roberto Freire. Também entendo que eles contêm um excelente trabalho de pesquisa na área da Psicossomática.

Finalmente esse trabalho se destina a ajudar pessoas que estejam confusas em seus processos “somaterapêuticos” ou como resultado deles, ou seja, que estejam fazendo ou que já tenham feito “SOMA”. Eu mesmo precisei dessa ajuda e garimpei as informações que me auxiliaram. Quero disponibilizá-las para quem delas precise. Com isso não pretendo estar dizendo nenhuma verdade definitiva ou absoluta, mas tenho certeza de que trato de coisas úteis e inéditas. Daí a importância da obra a que me proponho com estes escritos.

Copyleft

creative commonsCópia livre desde que respeitada a autoria. Não permito alterações do conteúdo ou uso para derivar outras obras. Comercialização só com minha prévia autorização.

Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

4 Respostas to “Introdução/justificativa/objetivos”

  1. Brina Says:

    Parabéns! Gostei muito dos textos, novamente adquiro maissss conhecimentos, e entendimentos. Obrigada.
    Brina.

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi

  2. katalyzt Says:

    Oi Fabio, antes de começar uma serie de resenhas e opiniões sobre esse seu trabalho “Crítica à Somaterapia de Roberto Freire”, queria dizer que a primeira impressão ao ler-lo foi de alegria, porque acho mais que necessário que existam e se expressem criticas, principalmente fundamentadas na tua ampla experiência na Soma e como autodidata/estudante (e agora profissional) do trabalho de Reich e suas ramificações.
    Não só necessário, teu trabalho é muito elucidativo, ao menos no meu caso (Completei a terapia em 96 com o Rui, antes de todas estas cisões) porque vem a dar voz a muitas questões que ficam no ar e\ou não são abordadas durante e depois do processo terapêutico, algumas sendo até tabus dentro do ambiente somático. Questões estas que, sem duvida, estiveram presente em meu crescimento pós-terapeutico e na minhas relações com pessoas e mundo até os dias de hoje.
    Pra mim e pra muitos que experimentaram a terapia jovens, a soma é uma escola da vida. É a nossa escola, onde aprendemos as bases referenciais pra maioria das nossas atitudes pessoais e sócias, como Freire gostava mesmo de frisar, transcende a psicologia. Soma é pedagogia. Libertária.
    Não depende se hoje estamos ou não de acordo com ela ou se nossa vivencia nos deixou um bom ou mau sabor de boca, pra mim e acredito que pra muitos, foi a oportunidade e o espaço que esperávamos pra romper com correntes e afirmar-nos como seres livres (independentemente se isso é utópico ou não).
    Nessa escola cada um vai ter uma leitura e aplicação diferente do que aprendeu porem, sem dúvida, nós alunos vamos ter muito em comum, ainda mais eu e tu que vivemos a mesma época e ambiente. Por isso é que eu vibrei com o teu texto, apesar de não estar de acordo em alguns pontos, tal como exporei mais adiante.
    Também há vários pontos de concordância e o primeiro deles é que uma disciplina cresce e evolui através de antagonismos, rompimentos, criticas, novas abordagens e fusões. É natural, foi assim com Freud, Reich e assim será com Freire.Conheci o aspecto dogmático da Soma em relação a algumas questões, me imagino que foi um processo difícil pra ti assumir tuas idéias.E nosso dever ser sinceros com o nosso caminho, porem não devemos nunca deixar de questionar as motivações pisco-emocionais que podem estar por trás de nossas atitudes.
    Então Fabio antes de tudo, parabéns. Teu trabalho me ajuda na releitura da minha própria terapia-vida com o foco na minha experiência aqui e agora.Se sua intenção era essa, tal como você expôs no ultimo parágrafo dessa parte, pode considerar como objetivo conseguido.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: