Influência do hedonismo sobre a metodologia

O hedonismo, a busca do prazer como referência, é um traço marcante na obra e vida de Roberto Freire. Livros como Coiote e Sem tesão não há solução são exemplos da expressão hedonista de Freire.

“O tesão, tanto o de fundo inconsciente (individual e coletivo na pessoa) quanto o consciente, é a principal arma que dispomos para lutar contra todas as tentativas de nos imporem as dependências, as limitações e as culpas que impedem as mutações existenciais e culturais …” (pg. 33 do livro Sem tesão não há solução)

O prazer realmente pode ser entendido como um guia quando nos encontramos em dúvida quanto o caminho a seguir. Buscar a profissão que nos dá prazer, assim como as relações que nos dão prazer, os lugares, etc. é, sem dúvida, um paradigma saudável para vida. Também pode ser interessante que, como faz a Somaterapia-de-Roberto Freire, se apresente esse paradigma justamente num momento de questionamento pessoal, de quebra de velhos padrões, de transformação, de movimento terapêutico.

Acontece, porém, que os processos terapêuticos passam pelo enfrentamento de desprazeres, necessários para o crescimento pessoal – fases difíceis, confusas, muitas vezes depressivas. Mais especificamente, em relação às terapias reichianas, a experiência com técnicas bioenergéticas e os relatos do próprio Reich mostram a existência de três camadas na couraça neuromuscular do caráter. Elas são etapas no processo de desencouraçamento. Assim, por trás de uma postura polida, cortês, educada encontramos uma camada de ira contida, represada. Por trás de um jeito de ser excessivamente tímido, se esconde uma pessoa que se acha o máximo, orgulhosa, vaidosa. Por trás de um ego inflado, narciso acentuado, peito cheio, nariz arrebitado, discurso sempre a frisar direta e indiretamente o quanto “eu sou demais!”, há uma pessoa que no fundo se acha de menos, está com a auto-estima baixa, arrebita o nariz porque quer permanecer altiva mesmo com tudo despencando. Muitos são os exemplos possíveis para as duas primeiras camadas, mas a terceira, segundo Reich é a do nosso amor universal, pleno, prazeroso. Para se chegar a ter contato com essa terceira camada é preciso passar pela segunda, não há como pular essa etapa, o que significa passar por fases de expressão negativa do ser – depressões, iras, confusões, etc. É nesse exato ponto em que se torna preciso esquecer a constante busca do prazer e viver com coragem a fase de desprazer existencial que nos levará a um novo ponto de equilíbrio psicossomático mais consciente e autônomo. A insistência numa referência hedonista leva à criação de fantasias compensatórias que consigam suprir a necessidade de “ter que buscar prazer” em meio a momentos de crise e enfrentamento de dores existenciais. Esse núcleo fantasioso pode ser ponte para uma saída psicótica para crise. Também aí encontramos um dos possíveis desencadeantes dos casos de surto esquizofrênico ocorridos em grupos da somaterapia-de-Freire.

A referência hedonista, assim como qualquer outro tipo de “ismo”, deve ceder em favor do momento e das especificidades de quem vive o processo terapêutico. Qualquer tipo de receita sobre comportamentos ou emoções, irá servir somente para transferir a pessoa de uma ilusão para outra. O terapeuta precisa ser continente para essa demanda, dar suporte aos momentos de “não prazer” que também fazem parte do processo terapêutico. Não ignora-los ou preconceituá-los de qualquer forma. Não devolver soluções prontas de resolução. Não torna-los estranhos no discurso do terapeuta, que se coloca como quem não vive isso, ou melhor, como quem encontrou a forma de superação disso e se agarrou a ela. E não irá larga-la para entender as necessidades emergentes de quem está fazendo terapia. Um terapeuta que tem uma postura radicalmente hedonista, cria uma espécie de esquiva às possíveis demandas negativas de seus clientes.

Roberto Freire costumava falar aos seus assistentes nas reuniões de formação que “terapeuta não é babá de louco”.

Há algo com muito sentido nessa frase. Com ela Freire resumia de forma lúdica uma crítica que fazia aos processos terapêuticos prolongados que se transformam em grandes seções de desabafo de frustrações, associado a um quadro sem transformações efetivas na vida da pessoa que poderiam quebrar os ciclos viciosos que geram as reclamações. Esse momento exige radicalidade do terapeuta para sair desse marasmo, dessa inércia. Uma quebra de pacto com a resistência tanto do cliente quanto do terapeuta.

Mas, também há nessa frase a essência da frieza, distância e esquiva que busco apontar. Essa frase deixa de ser engraçada quando o cliente fica realmente louco e o terapeuta realmente não dá suporte à situação.

Durante os cinco anos em que fiz formação para somaterapeuta ocorreram cinco casos de clientes que tiveram surtos psicóticos e se afastaram dos grupos de somaterapia por internação em institutos psiquiátricos. Dois deles ocorreram em grupos em que eu era assistente; nesses pude acompanhar de perto os fatos. Por muito tempo fiquei me questionando como e porquê aquilo havia acontecido. O que poderia ter sido feito para evitar? Qual era a porção de responsabilidade do processo terapêutico por aqueles fenômenos? Os outros três casos ocorreram em grupos em que eu não participava e só ouvi relatos sobre eles. Minha crítica nasce da postura de pouca atenção dada ao estudo minucioso de cada caso para detectar as questões acima. Houve relatos resumidos, mas não houve pesquisa, não entramos em detalhes, não encontramos conexões, não discutimos abertamente o assunto. Foram abafados em vez de abertos. Eu busquei o máximo que pude de informações dentro e fora do Coletivo Brancaleone sobre os casos. À primeira vista acho interessante notar que ocorreram em grupos de terapia distintos, de cidades diferentes, sob responsabilidade de diferentes somaterapeutas. Isso aponta para o método. Como já comentei antes, havia certo tabu em discutir-se ou questionar-se o método junto a Roberto Freire e, com isso, importante material de pesquisa se perdeu no tempo.

Como em outros aspectos apontados nesta monografia, também nesse caso os somaterapeutas na prática dentro dos grupos, foram “aliviando” a radicalidade proposta por Freire em seu método, principalmente depois do afastamento dele do trabalho direto com grupos de terapia e mais ainda com sua saída definitiva na participação dos trabalhos do coletivo. Entendo que instintivamente perceberam que poderia ser a mistura de ingredientes da metodologia parte responsável por aqueles casos. Mas, devido a uma espécie de “excesso de respeito” à figura de Roberto Freire associado e de exaltação do método, isso não foi devidamente esclarecido.

 

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3 Respostas to “ULTRAPASSADO 2 – Hedonismo”

  1. Iago Says:

    Tive refletindo sobre esse capítulo. To afim de contribuir com alguns de meus pensamentos.
    Primeiro acho importante colocar uma observação minha sobre a terapia em ação. Por um lado, o Rui está sempre entrando com essa perspectiva de se guiar pelo prazer. Contudo, o processo neurótico, percebo, parte de uma necessidade e busca por fundamentos, bases, essências; tentar cristalizar algo permanente no fluxo mutante da vida. Daí, um risco terapêutico constante é alguém estabelecer esse lance do prazer como uma essência, e não como um potencial. Explicando melhor: a gente tenta estabelecer um critério universal, como o prazer, para poder nos guiar – ou seja, pra evadir a especificidade de cada aqui-agora, evadir a responsabilidade de tomar a própria escolha, elevando um referencial qualquer a um nível transcendente – ao nível de lei, ao nível do pai, do estado, etc. Pelo que observo (nunca conversei isso com ninguém), o Rui tá sempre entrando com apontamentos em via de solapar as tentativas de “legalismo” nesse sentido, em vias de recuperar o presente, a singularidade da situação – se a situação está dolorosa, a questão é ser estratégico em vias de lidar com isso da melhor forma possível.
    Entende a diferença? Elevando o prazer à transcendência da lei, você tem como mandatória a exclusão da dor – que é parte do processo vital assim como qualquer outro. Estabelecer um certo e um errado essencializados, não-situacionais, é reinserir a neurose. Esse risco existe em QUALQUER processo analítico, ao meu ver. Você pode estar mais ou menos consciente dele. Uma vez consciente, e eu acho que o Rui está – mesmo que sem recorrer a palavras como esta, ele puxa mais o Maturana pra colocar as coisas “entre parênteses” – o terapeuta deve intervir de forma a arrastar o cliente pra longe dessa possibilidade, transferindo para ele e para a sua capacidade de escolha o onus de guiar sua vida.
    Quanto aos surtos… por um lado, fiquei pensando que a emergência bioenergética súbita provavelmente ameaça causar surtos em pessoas prédispostas ou incapazes de lidar com o fluxo extremo de sensações. É assim que entendo os surtos psicóticos em experiências psicodélicas, pelo menos (LSD, ayahuasca, mescalina, etc). Acho isso bem plausível de rolar em no tipo de ambiente terapêutico que rola na soma. O que me desagradou foi essa informação a respeito do despreparo – e possível descaso – dos terapeutas.

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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