O desatualizado referencial de luta contra a repressão sexual

A neurose se alimenta energeticamente do desvio da energia da libido, consequente do bloqueio à livre sexualidade e expressividade em geral.

Cabe, diante da percepção do fato, começar a questionar a quem interessa a constante, histórica e cotidiana repressão que oferecemos à livre expressão da sexualidade das crianças que criamos para transformarem-se em adultos auto-contidos, com sérios problemas sexuais, pior ainda, com sérias dificuldades em discutir abertamente suas dúvidas. É preciso pensar sem preconceitos e moralismos, o que nossa sociedade ganha e perde com isso. Ou melhor, quem ganha e quem perde com isso. Segundo Reich, seres humanos que pudessem viver livre e satisfatoriamente sua sexualidade dificilmente se submeteriam a qualquer tipo de regime autoritário. Dessa forma percebemos que a repressão sexual se encontra a serviço da manutenção das instituições de poder e não da saúde física e mental das populações a ela submetidas. É famosa a frase de Reich “Se a fome trás a revolta, o recalcamento sexual trás a submissão”. Reich utiliza muitas vezes em sua obra o termo “polícia de costumes”. É impressionante constatar como ela exerce uma influência mais próxima do que a polícia oficial, quando se trata de controle direto sobre nosso comportamento cotidiano.

Foi constante a luta de Reich contra o forte moralismo de sua época. Ainda como estudante de Medicina, na Universidade de Viena, incomoda os professores ao criar um grupo de estudos que consegue modificar a absurda visão da disciplina de Anatomia, que entendia o órgão reprodutor feminino como “um órgão masculino às avessas”.

Em 1931, como ativo membro do Partido Comunista, Reich funda a Associação alemã para uma política sexual proletária ou SEXPOL, que trabalhava com o proletariado sobre os entrelaçamentos entre sexo e política. Esse movimento cresceu rapidamente dentro do Partido, chegando a contar com 40 mil associados, atraindo principalmente os jovens comunistas. Reich defendia que a revolução política tinha que ser acompanhada de uma revolução sexual dos costumes. Em seu livro A Revolução Sexual, Reich mostra um relato histórico sobre como no momento pós-revolução russa, foi fundamental a quebra dos velhos dogmas morais para a formação das comunas, chegando a ser decretada a morte da família patriarcal e seu absurdo moralismo. Posteriormente, na segunda metade do livro, Reich tece sérias críticas aos caminhos da revolução russa com a ascensão do Stalinismo. Ele mostra como o modelo da família patriarcal estava sendo reimplantado por Stálin para permitir a tomada de poder por um regime autoritário. A radicalidade com que Reich luta contra o moralismo, mesmo que esteja travestido de “comunismo”, e o forte crescimento da influência da SEXPOL entre os membros mais jovens do partido, passou a incomodar seus dirigentes mais ortodoxos. Inicia-se uma campanha de difamação de Reich e suas idéias, patrocinada pelo alto escalão do Partido Comunista, que culmina na sua saída em 1934.

A repressão da vida amorosa infanto-juvenil provou, graças às pesquisas da economia sexual e individual, ser o mecanismo básico da criação de indivíduos submissos e escravos econômicos. Portanto, não se trata mais de apresentar uma carteira de filiação partidária branca, amarela, preta ou vermelha para provar essa, aquela ou qualquer outra ideologia. Trata-se, inequivocadamente sempre sem qualquer possibilidade de mistificação social, de se afirmar integralmente, de ajudar e assegurar, as manifestações livres e sadias da vida dos recém-nascidos, das crianças, dos adolescentes, das mulheres e dos homens; ou de se reprimi-las ou aniquila-las, seja com que ideologia ou pretexto, seja no interesse deste ou daquele Governo, “proletário” ou “capitalista”, seja ainda em nome desta ou daquela religião, judaica, cristã ou budista. Isso vale em qualquer lugar e enquanto houver vida, se é que se quer acabar de uma vez por todas com o embuste organizado das massas humanas trabalhadoras; se é que se quer demonstrar pela ação que os ideais democráticos o são a sério.” (trecho do prefácio da 3ª edição, 1945, do livro A Revolução Sexual)

Foi também por sua determinação em colocar a Ciência acima dos moralismos que Reich se uniu ao grupo de trabalho do professor Sigmund Freud que andava fazendo, no início do séc. XX, uma verdadeira revolução de costumes com idéias como a importância da libido na formação psíquica, atração entre filhos e mães, etc. Reich dedicou mais de uma década de sua vida ao estudo, desenvolvimento e clínica da Psicanálise, antes de romper com Freud exatamente por entender que ele se tornara reacionário diante das teorias que surgiram com as descobertas empíricas de Reich em sua prática psicanalítica, que significaram revoluções ainda mais radicais contra os dogmas moralistas.

Quando afirmou que “a toda neurose acompanha uma disfunção sexual”, Reich encontrou forte críticas dos outros médicos psicanalistas que diziam atender a muitos casos de pessoas neuróticas sem nenhum tipo de disfunção sexual. Reich esclarece a questão criando o conceito de potência orgástica, para trazer o entendimento que existem níveis de disfunção sexual. Antes de Reich somente eram consideradas disfunções sexuais: a impotência, o anorgasmo e a frigidez. Com ele, passamos a entender que existem orgasmos que não são plenos, cuja energia é redirecionada para neurose como válvula de escape à tensão libidinal não descarregada.

A fonte energética de nosso querer é a libido, não só quando estamos fazendo sexo, mas em toda e qualquer situação cotidiana. Libido é sinônimo de ânimo, fogo, vontade de viver. É ponto fundamental para um processo terapêutico de base reichiana tentar recuperar a expressão da sexualidade, bloqueada que foi em nossa formação, pela repressão social à sua livre manifestação. Porém, há diferentes possibilidades para interpretação do que seja livre manifestação da sexualidade.

Reich toda vida travou luta veemente contra o moralismo de sua época. O amplo entendimento da obra de Reich trás essa necessidade – buscar uma cultura que entenda o sexo como algo positivo, uma sociedade que seja profilática e não geradora de neuroses.

Esse é o ponto central em que queria chegar com a explanação anterior: o contato com a obra de Wilhelm Reich nos desperta claramente a necessidade de combater a repressão sexual do moralismo de nossa época. Mas, o que significa ter uma postura e um discurso anti-moralista nos dias de hoje? A pergunta principal é: qual a diferença entre a repressão sexual da moral do início do século passado e a deste início de século? Qual a cara nova da antiga repressão sexual? Será que o discurso anti-moralista do século passado não passou a ser exatamente o discurso moralista deste século?

A ideologia neoliberal utiliza um interessante sistema de defesa para se perpetuar e se disseminar pelo mundo – ela “fagocita” os movimentos sociais contrários ou diferentes, absorve, permite, literalmente libera e depois banaliza transformando em mercadoria. Permite, corrompe e compra. Foi assim com a revolução hyppie, com a revolução feminista, com a revolução sexual, com o movimento sindical, com o movimento estudantil, com o movimento punk e com a contra-cultura em geral.

O maior ícone da repressão sexual dos dias de hoje são as revistas pornográficas expostas em bancas de revista, a sessão de vídeos pornográficos das videolocadoras, as propagandas de casas de prostituição, os tele-sexo, etc.

Com Reich entendemos que reprimir sexualidade é reprimir a capacidade de envolvimento e entrega amorosa durante o ato sexual. A questão fundamental, então, nasce da pergunta: de que forma é reprimida a capacidade de envolvimento e entrega emocional?

Cabe entender que a resposta trás uma perspectiva histórica embutida. Ou seja, essa forma se modificou significativamente da época de Reich – primeira metade do séc.XX – bem como da época de Roberto Freire – segunda metade do séc. XX – com relação à forma como se apresenta hoje – início do séc. XXI.

De forma inédita, historicamente falando, a repressão sexual de hoje está travestida de liberalidade. A moral do sistema capitalista neoliberal cria uma armadilha completamente diferente e historicamente inédita para a entrega amorosa. A maior possibilidade de nos relacionar sexualmente com muitas pessoas que a moral neoliberal oferece, dificulta estar totalmente entregue a uma só. Exatamente por existir a possibilidade de manter-se relações sexuais com muitas pessoas diferentes, pelo fato de isso ser normal em nossa sociedade capitalista neoliberal, é que se cria a dificuldade de profunda entrega amorosa durante o ato sexual. Tal dificuldade é maquiada com fetiches e fantasias sexuais, também normais, liberadas e incentivadas nas sociedades neoliberais. A mais atual forma de repressão sexual consiste em fazer com que enxerguemos os corpos como mercadorias em uma sociedade que incentiva o consumo exagerado de tudo.

Além disso, é fundamental perceber que a livre expressão sexual das crianças nascidas no séc. XXI continua a ser reprimida. Talvez de forma menos violenta, mais pedagógica, mais conversada, etc., etc., etc, … mas reprimida sim! Como bem aponta Ângelo Gaiarsa (um reichiano de referência nacional) num trecho de seu livro A família de que se fala e a família de que se sofre: “brincar de guerra pode, mas de amor não!” Referindo-se ao fato facilmente constatável que em nossa sociedade – seja em lugares públicos ou dentro dos lares, nas praças, escolas ou festas de família, onde muitas crianças estejam reunidas, interagindo, brincando – nenhum adulto acha estranho ou reprime crianças que estejam brincando de polícia e ladrão com armas, fugas, perseguições, brigas e mortes. Mas, vá lá algum grupo de crianças brincar de se tocar, explorar seus corpos, se abraçarem, se esfregarem, tirar suas roupinhas, etc. frente a adultos – o caos está estabelecido, rapidamente pais e responsáveis dão um jeito de acabar com aquela brincadeira, seja de forma sutil ou violenta.

Agora, a diferença histórica do moralismo do séc. XXI é que a criança, depois que cresce sendo reprimida em sua espontaneidade sexual, encontra uma sociedade de adultos onde o sexo é permitido, incentivado e vendido como mercadoria que se consome. Esse jogo trás um novo paradigma no estudo dos resultados da repressão sexual da sociedade sobre os indivíduos. Vivemos numa sociedade em que todos, por frustração ou compulsão, pensam em sexo o tempo inteiro. O apelo sexual está na mídia, nas roupas, nas danças da moda, nas conversas, etc. Mas, apesar disso, poucos casais tem conseguido manter relações sexuais saudáveis, com entrega amorosa profunda, com encontro de almas.

Reich mostra como o orgasmo pleno é um dos principais e mais poderosos mecanismos naturais que o organismo tem para se desencouraçar completamente. Para ele, o orgasmo pleno só acontece com a entrega emocional plena, com a plena capacidade de amar. Dificulta a entrega emocional, a existência de jogos e insinceridades entre quem se relaciona. Estes, muitas vezes, acontecem porque as pessoas querem manter uma constante abertura para outras relações, atraídas pelas muitas possibilidades de um meio social com “grande oferta”.

O erro dos dogmas moralistas do início do século passado, contra os quais a geração de Reich lutou, era entender a fidelidade obrigatória como uma forma de se conquistar uma relação de maior entrega, sem perceber que a fidelidade é, ao contrário, conseqüência natural de uma relação de maior entrega. A fidelidade obrigatória moralista acaba por não conquistar um estado de maior entrega amorosa, mas uma relação de amor livre tende a conquistar um estado de fidelidade natural, biológica, que acontece sem imposição racional.

O erro dos anti-moralistas da segunda metade do século passado, dos quais Roberto Freire faz parte, foi também criar dogmas sobre o que seja uma “relação libertária”, fachada que muitas vezes esconde grandes confusões emocionais que também dificultam, só que de forma diferente, a verdadeira entrega ao sentimento de amor.

A chave para entender essa questão é perceber que há uma base subjetiva coerente que justifica a perpetuação dos moralismos relacionados à fidelidade. Supõe-se que a fidelidade obrigatória nos afasta da possibilidade sempre presente de nos machucar emocionalmente quando nos entregamos plenamente ao Amor. Ela dá garantias ao nosso ser frágil – aquele que sente amor com doçura, abertamente, em gestos e discursos – de que ele pode manifestar-se porque o campo está seguro, porque o outro não vai embora, porque o outro nos é exclusivo. Por mais que o modelo de fidelidade obrigatória tenha demonstrado através da história que ele não consegue cumprir na prática seus objetivos ideais, ele se perpetua porque as pessoas querem a fantasia de poder decretar a fidelidade do outro. A análise dessa base de coerência emocional que ajuda a perpetuar os códigos moralistas é importante e necessária principalmente para quem deseja ultrapassar a restrição imposta pelo moralismo. Caso contrário, corre-se o risco de viver relações com muitos jogos de poder e grande grau de confusão emocional, o que acaba justificando a existência do moralismo para normatizar o certo e o errado na conduta dos casais.

Qualquer tentativa de quebra com as regras moralistas ortodoxas, precisa estrategicamente preservar o senso ético que, bem ou mal, embasa a perpetuação histórica daquele código moral. É preciso um novo conjunto de regras. A liberdade não está na ausência de regras, mas na capacidade de ultrapassar as regras gerais pré-estabelecidas – aquelas que estavam prontas mesmo antes de nascermos – e estabelecermos um novo conjunto de regras próprio, único e autêntico.

As regras gerais históricas são, ao mesmo tempo, modificáveis pela influência de comportamentos atuais, pela força do diferente, das iniciativas de formar novas relações em velhas sociedades.

Elaborar um novo conjunto de regras que faça o papel de proteger esse ser frágil e ao mesmo tempo poderoso, aquele que manifesta abertamente seu amor, é uma questão de sobrevivência da iniciativa das pessoas que buscam uma relação mais livre, moralmente independente. Caso contrário haverá dor e confusão superior a das relações moralistas. As novas regras surgem do consenso entre as pessoas que se relacionam, da discussão aberta, da expressão sincera de seus desejos, dúvidas e medos sobre esse mergulho no pleno sentimento do amor.

No capítulo 15 do livro Soma 1, Roberto Freire reflete sobre o aspecto antropológico de sua metodologia de trabalho terapêutico. Em dado momento afirma:

“Voltemos ao estudo de como as relações sexuais livres deram lugar as relações monogâmicas. A princípio, não havia qualquer esquema ou proibição às relações sexuais. Só mais tarde iriam surgir formas organizativas.” … “Vale a pena pararmos um pouco para refletir sobre o fato de ter sido no momento em que surgiu a propriedade privada (os rebanhos) e a separação do homem e da mulher em funções distintas, que o homem teve a possibilidade de vivenciar a relação dominador/dominado, princípio básico da ideologia da dominação” (pág. 160 do livro Soma 1)

Percebam como Freire opõe “relações sexuais livres” à “relações monogâmicas”, dizendo que, na história das civilizações humanas, com o fim de um período surge o outro. Ele faz isso embasado no clássico trabalho de Engels, do séc. XIX – A origem da família, da propriedade privada e do Estado, que também serviu de base antropológica para o marxismo.

O estudo antropológico de Humberto Maturana denominado Ontologia do Amor, do final do séc. XX, nos trás o entendimento de que evoluímos dos grupos de grandes primatas onde, até hoje, os machos disputam território e fêmeas. Maturana trás a tese de que surgiram grupos com maior solidariedade e menor competição entre os machos e isso permitiu o desenvolvimento da linguagem, principal característica humana. Ou seja, em nossas sociedades mais primitivas, não só havia sérias restrições à livre sexualidade como havia posse sexual sobre as fêmeas, que eram disputadas pelos machos em lutas até a morte. Então nunca houve esse período de “liberdade sexual total dentro das sociedades humanas” que segundo a visão de Roberto Freire foi quebrado quando o homem aprendeu a ter rebanhos de animais criados, entendendo o que é ter a posse da terra e de outros animais e fazendo o mesmo com as mulheres, obrigando-as a estabelecer relações monogâmicas (segundo os marxistas é nesse momento que surge a primeira luta de classes, ou seja, entre homens e mulheres).

O conceito de “liberdade sexual” nascido das revoluções sociais da segunda metade do século passado, que impregna o discurso “somático” de Freire, pode ser considerado hoje uma fórmula pronta que muitas vezes não se encaixa nas necessidades de quem quer ultrapassar os inéditos moralismos neoliberais existentes neste início do séc. XXI. Esse discurso ainda se sustenta porque muito do moralismo do início do século passado ainda está presente no moralismo do séc. XXI, mas rapidamente vem se tornando desadequado para responder aos desafios do novo século, porque permanece anunciando em tom de revelação o que hoje já é óbvio. Hoje, percebemos que a grande maioria das pessoas ainda busca acordos formais e legais de casamento não porque são moralmente obrigadas, mas porque assim se sentem mais seguras. As idéias de Engels são anteriores a todo movimento feminista que acontece no século XX. Hoje vivemos em sociedades onde muitas mulheres frequentam casas de strip-tease e prostituição de homens. Muitas mulheres literalmente caçam seus maridos e muitas outras os sustentam. Cresce o numero de jovens que retardam sua primeira relação sexual porque querem vive-la com alguém que dê sentido emocional à experiência. Será que o simples dualismo exposto por Freire dá conta desses novos paradigmas?

Nada impede que uma relação monogâmica seja a maior expressão da livre sexualidade de um casal. Pode ser que exatamente nos períodos monogâmicos, o casal tenha as relações sexuais de maior entrega emocional e, segundo o que descreve Wilhelm Reich, de maior potência orgástica. Também nada garante que relações poligâmicas e/ou poliândricas sejam de maior liberdade sexual. Para buscar entender a complexidade dos fenômenos das relações humanas – sociais e sexuais – neste início do séc. XXI melhor é jogar fora tais rótulos e sua visão dualista.

 

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2 Respostas to “ULTRAPASSADO 1 – Sexualidade”

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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