Lacan e a mútua transferência

Os fenômenos transferenciais, foram nomeados por Freud como “transferência” e “contra-transferência”. A partir de uma crítica de Lacan à Freud, se esclarece que a transferência é sempre mútua e que o terapeuta também oferece resistência ao trabalho terapêutico. Os afetos transferenciais do terapeuta em relação ao terapeutizante não são “contra” a transferência, pelo contrário, eles são a própria transferência, a transferência em si.

A forma mais eficaz de se boicotar o trabalho terapêutico acontece quando o terapeuta se entrega aos seus sentimentos transferenciais surgidos na relação terapêutica. Perceba que não é necessário o extremo do/a terapeuta se relacionar sexualmente com seu/sua cliente para acabar com a terapia. Basta entregar-se à paixão que sente por ele/a, admirá-la, perder-se em devaneios e abandonar o aqui-agora do trabalho terapêutico que necessita sua atenção. Da mesma forma não é preciso ofender, bater ou agredir um/a cliente para acabar com a terapia. Basta se entregar à antipatia para distorcer o olhar e os comentários do terapeuta.

O afeto transferencial é o último recurso da resistência. Ele surge quando o próximo passo nas descobertas sobre nós mesmos, no processo de conscientização do nosso inconsciente, irá provocar uma mudança caracterial – no nosso “jeito de ser”, nos nossos comportamentos habituais, na nossa personalidade. A transferência surge como única resposta possível naquele momento para se continuar fazendo terapia e não efetivar mudanças e transformações pessoais, ela revela e ao mesmo tempo esconde o que ainda não conseguimos assumir aberta e conscientemente sobre nós mesmos. O afeto que aflora representa a história de vida e sua essência é o centro do conflito neurótico sendo trazido para o aqui-agora do setting terapêutico. É fundamental que o terapeuta o reconheça e saiba lidar com ele. É a única forma possível que ele tem para dar um passo à frente no processo terapêutico. Caso não tenha essa percepção, ele entra no “ponto cego” de sua visão terapêutica, a partir do momento em que os sentimentos transferenciais surgem.

O sentimento transferencial é um pedido de ajuda e esclarecimento do terapeutizante porque revela seu conflito interno entre prosseguir ou não com a terapia, o desejo e o medo da transformação, visto que a transferência ao mesmo tempo ajuda e atrapalha o andamento do trabalho terapêutico. A diferença entre um e outro resultado está na habilidade do terapeuta de entender o que está acontecendo.

A transferência atrapalha o andamento do trabalho terapêutico porque muda o foco de atenção sobre si mesmo para o sentimento que aparece em relação ao outro. Mesmo sendo um passo à frente, na realidade o único possível naquele momento, o afeto transferencial, ao exercer a dupla função de manter e cortar a terapia, arma a melhor estratégia de resistência possível. Mantém a terapia acontecendo formalmente, mas embaraça, embaça, cria confusão sentimental.

Ao mesmo tempo em que o afeto transferencial mantém o interesse em estar presente ao trabalho terapêutico pelo interesse em manter a convivência com o outro que nos afeta, ele muda o motivo pelo qual se está lá que antes era o interesse por nós mesmos.

O terapeuta também resiste à terapia. É preciso sair de um lugar superior em que alguns terapeutas se colocam para perceber que a transformação do terapeutizante (termo utilizado por Lacan) irá transformar também o terapeuta e que ele teme essa transformação tanto quanto o terapeutizante. As resistências à transformação são bidirecionais dentro do processo terapêutico individual e multidirecionais num processo terapêutico de grupo.

Lacan vai além e afirma que a resistência é sempre do terapeuta e cabe a ele estar atento disso. Ele aponta que é esperado do terapeutizante que resista à terapia em algum momento por ser ele o foco de atenção do trabalho. A resistência é inerente a transformação terapêutica como a inércia é inerente ao início ou à mudança dos movimentos. Não só é esperado que o foco da terapia resista a ela como isso é indício de que a terapia está acontecendo. Agora, do terapeuta é esperado que tenha experiência em lidar com a situação, saiba perceber em si os afetos transferenciais, bem como os trabalhe em supervisão constante. Quando essa percepção e esse trabalho não existem a resistência encontra um esconderijo estratégico para usar a defesa transferencial e os resultados do trabalho terapêutico podem criar grande confusão emocional em todos.

Quando o terapeuta provoca um processo terapêutico e se entrega aos sentimentos transferenciais positivos ou negativos dele surgidos, ele abandona o trabalho. O pior é que ele não vai embora, esclarecendo o que se tornou obscuro, mas permanece presente alimentando as transferências mútuas, os sentimentos transferenciais do outro (no caso da terapia individual) ou de todos (no caso de um grupo) com relação ao terapeuta. Tecendo a rede de resistências. Criando a estratégia mais eficaz para que a terapia não aconteça efetivamente.

Lacan critica os termos transferência e contratransferência, criados por Freud, afirmando ser um modo de se enganar sobre o fato da transferência ser sempre mútua. Lacan também desbanca Freud do lugar de descobridor da transferência, dizendo que foi Platão quem fez o primeiro tratado sobre Transferência, em seu texto O Banquete, onde debate sobre o Amor. Essas críticas despertaram um novo olhar do terapeuta sobre os próprios afetos transferenciais, modificando a técnica.

“A transferência é um fenômeno em que estão incluídos, juntos, o sujeito e o psicanalista. Dividi-la nos termos transferência e contratransferência, qualquer que seja a sagacidade, a desenvoltura das proposições que a gente se permita … eludir o de que se trata.”

“É por isso que por trás do amor dito de transferência, podemos dizer que o que há é afirmação do desejo do analista com o desejo do paciente. É o que Freud … , mas no seu encontro com o desejo do analista.” (pág. 240)

Freire busca romper com os padrões metodológicos desenvolvidos pela Psicanálise, onde existe uma postura de distância entre terapeuta e cliente. Para ele, pelo contrário, deve-se incentivar a relação extra setting terapêutico, com encontros sociais, festas, reuniões, etc. Essa é uma marca, uma das principais diferenças da Somaterapia-de-Roberto Freire de outras terapias.

Acontece, porém, que essa postura revolucionária não se associou ao necessário estudo das diferentes formas com que o fenômeno da transferência se manifesta sobre essas novas condições. Durante toda formação, Roberto Freire não falou de transferência em seus direcionamentos técnicos e metodológicos.

Tal falha tem sido responsável por muita confusão emocional tanto por parte de terapeutas quanto de clientes entrelaçados pela quebra de dogmas morais e psicanalíticos, sem atentar para o fato que tanto um quanto outro tem certa coerência empírica que precisaria ser cuidadosamente entendida antes de ser ultrapassada. Há somaterapeutas que encontram uma paixão em cada grupo que trabalham e se equilibram de forma frágil entre tantas demandas emocionais paralelas, até que suas bases de coerência desabam em grandes crises permeadas de desconfianças e questionamentos éticos.

A única regra referente ao assunto que existe dentro do Coletivo Brancaleone é a proibição do relacionamento sexual entre clientes e terapeutas. Regra que é periodicamente quebrada, tanto que, coincidência ou não, todos os somaterapeutas namoraram, casaram e tiveram filhos com clientes da SOMA. Quando era revelada a desobediência à regra, providenciava-se a imediata substituição do terapeuta por outro do coletivo ou, quando essa relação era oculta, gerava segredos e culpa nos envolvidos, atrapalhando de forma significativa o processo terapêutico de todo grupo. Durante minha formação presenciei muitas situações como essas acontecendo com os somaterapeutas e também certa vez me envolvi em relações com uma cliente, permeadas de tamanha confusão emocional, que fui obrigado a interromper no meio do processo minha participação como co-terapeuta em um dos grupos nos quais trabalhava. Perdi cerca de um ano de trabalho. Por outro lado, desde essa experiência passei a estudar de forma autodidata sobre o fenômeno da transferência no processo terapêutico.

Hoje entendo que não adianta somente criar uma regra proibitiva, sem a análise mais profunda das muitas faces que a transferência adquire no ambiente em que acontece a relação terapeuta-cliente. É como jogar o terapeuta na fogueira e colocar como proteção uma regra que proíbe que ele se queime. Ao não se estudar adequadamente essas questões, perde-se importante ferramenta para o trabalho terapêutico, pois a transferência é uma articulação da resistência à terapia, tanto do cliente quanto do terapeuta.

Uma mostra do engessamento que significa criar uma regra proibitiva simples para tentar dar conta de um problema complexo é o fato da regra prever que após a “cadeira quente” do cliente não há mais necessidade da proibição da relação sexual entre terapeuta e cliente porque a cadeira quente é considerada o ponto final da terapia do cliente. Acontece que esse tende a ser um momento em que os afetos transferenciais são mais intensos. O pior momento para ceder aos desejos transferenciais. No final, a resistência à terapia venceu. E venceu mesmo! Pois, em todos os casos em que isso aconteceu, as pessoas ganharam novos amantes por um tempo breve – porque as relações não prosseguiram, mas perderam definitivamente seus terapeutas. Exatamente no momento em que mais precisavam deles. E isso acontecia dentro da regra.

Na prática era comum que os somaterapeutas se apaixonassem por algum de seus clientes no meio do processo terapêutico e segurassem essa paixão, controlassem o desejo, esperando até o momento “pós-cadeira quente” desse/a cliente para concretizar essa paixão em ato. Acontece que basta entregar-se a paixão para que o trabalho do terapeuta literalmente “deixe a desejar”. Prejudicando não só sua postura com o objeto de sua paixão como com todos os outros integrantes do grupo. A resistência consegue minar o trabalho terapêutico até que se supere (ou não) essa crise pessoal.

Não proponho uma postura de distância entre terapeuta e cliente. Isso seria um retrocesso. Mas quero apontar a pouca atenção dada a esses fatos e a discussão sobre eles, permeada por uma dificuldade em se criticar a metodologia desenvolvida por Freire que, como ardoroso crítico da Psicanálise, acaba descartando tudo o que se refere a ela. Esse conjunto de fatos cria a mais eficaz forma de resistência à terapia, ou seja, quando o próprio terapeuta se enrosca em seus sentimentos transferenciais.

 

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4 Respostas to “TRANSFERÊNCIA 3 – Lacan”

  1. Iago Says:

    Bacana. Não tenho conhecimento de se o Rui tá conduzindo pesquisas nesse campo, ou se conduziu, mas parece realmente necessário uma construção analítica nesse sentido, pra arcar com essa possível circulação de afetos no corpo terapêutico. Admito que não sou muuuito versado na conceituação sobre a transferência, mas acho que nem o afastamento nem o silêncio proibitivo parecem soluções aceitáveis. A coisa precisa ser abordada estrategicamente. (:

  2. Brina Says:

    Que interessante…

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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