Obrigatoriedade da prática da Capoeira de Angola nas palavras de Roberto Freire

Em 1976, Roberto Freire decide “acoplar” sua técnica terapêutica ao ritual da Capoeira de Angola. Não podendo abarcar a Capoeira para dentro de sua terapia, por tratar-se de um imenso universo próprio e distinto (vale lembrar que a Capoeira tem 400 anos de história e a Somaterapia-de-Roberto Freire tem 40), Freire indicou, então, que as pessoas interessadas em fazer sua terapia teriam que obrigatoriamente treinar capoeira e quem quisesse fazer formação para trabalhar com sua terapia teria que obrigatoriamente transformar-se em capoeirista e professor de capoeira:

Como o somaterapeuta é, em verdade, um frequentador comum de Soma, ele deve praticar regularmente a Capoeira, para proteger-se da recorrência neurótica e poder curtir o intenso prazer libertário dessa prática corporal, muito semelhante ao que viveu nos exercícios de Soma. Daí o acoplamento e complementação perfeitos das duas, compondo juntas a real e eficiente unidade terapêutica em que a Soma pode vir a tornar-se” (pg 75 do Soma 2).

Freire incorpora a capoeira ao seu trabalho de forma definitiva e incontestável:

Há um assunto ético que merece referência especial, para que se evitem mal entendidos. Só existe um tipo de Soma: a que se utiliza da Capoeira como instrumento de ação bioenergética, de adestramento e enfrentamento corporal.” (pg 146 do livro SOMA 2).

A Soma que pratico, aquela que acredito ter poder terapêutico (…) não pode estar desacompanhada de Capoeira. Mas Capoeira de Angola, a original, menos violenta que a Regional e mais completa em sua função bioenergética.” (pg 77 do livro SOMA 2)

Este ponto se torna tão fundamental para Freire que o título do livro que escreveu para definir a prática de seu método é “A Arma é o Corpo – Prática da Soma e Capoeira”. E na contracapa encontramos:

Este livro ensina a prática da Soma como a criou e desenvolveu Roberto Freire. Explica também que a Soma está agora associada definitivamente à Capoeira, que provou ser o melhor e mais completo exercício para liberação bioenergética. (…) Neste período de escravização psicológica (neuroses), a juventude brasileira agora pode dispor da Soma-Capoeira, para a sua libertação.”

Antes de conhecer a Somaterapia-de-Roberto Freire eu já havia treinado capoeira por um ano. No processo de formação para “somaterapeuta” tornei-me capoeirista e professor de capoeira. Pratico Capoeira há doze anos, um de Regional e onze de Angola. Aprendi amar e respeitar as tradições da Capoeira. Ela não dá diplomas, é um ritual de luta, canto, dança e teatralidade que exige entrega e conhecimento para dele se participar. “Capoeira é tempo, ô Kalunga!” – é trecho de um “corrido” que define bem a única forma de se adquirir verdadeiro conhecimento sobre ela. Além da constante prática corporal, é fundamental estudar a história da Capoeira, assistir a muitos jogos, ao vivo e em gravações, participar de muitas rodas, fazer oficinas com diferentes mestres, tocar berimbau todos os dias, pesquisar as novas e as muito antigas letras de músicas – as centenas de ladainhas e corridos que fazem parte do universo musical da Capoeira, aprender a soltar a voz para poder cantar na roda, pegar o gunga (berimbau que puxa o ritmo de toda bateria) e ter a responsabilidade de manter uma roda. Essas e muitas outras coisas sobre a Capoeira somente se aprendem com tempo, prática e dedicação.

Com sete anos de capoeira, comecei a dar aulas. Inicialmente para os clientes da Somaterapia-de-Roberto Freire. Depois, durante um ano consecutivo, para jovens e crianças de 5 a 18 anos na comunidade das Areias do Campeche como bolsista do PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Depois disso, como bolsista de extensão da UFSC, mantive oficinas semanais de capoeira nos CAPS – Centro de Apoio Psico-Social – adulto e infantil da Prefeitura de Florianópolis, durante um período de dois anos, onde tive a oportunidade de trabalhar com Capoeira junto a pessoas com sofrimento psíquico. Apresentei para Universidade Federal de Santa Catarina um relato completo sobre essa experiência. Nele apresento os pontos porque acredito seja a capoeira uma excelente ferramenta de trabalho terapêutico para usuários de psicotrópicos. Ele se chama [link] A Capoeira como instrumento e recurso terapêutico para pessoas com sofrimento psíquico, usuários do serviço de saúde público [link]

Entendo que a Capoeira tem realmente um universo de possibilidades que pode ser usado para os mais diversos fins: culturais, artísticos, terapêuticos e muitos outros. Certa vez, porém, as palavras que ouvi sobre esse assunto, numa entrevista com mestre baiano “Lua Rasta”, me tocaram profundamente: “… todo mundo quer tirar da Capoeira, mas eu quero saber quem é que dá para Capoeira”. Como capoeirista, entendo o que ele quis dizer. A Capoeira só está viva enquanto existe como ato, nos momentos em que pessoas doam seu tempo e sua energia para fazer acontecer o maravilhoso ritual de música, canto, dança, luta e festa que encanta a todos que o assistem. Foi graças a essa magia que a Capoeira conseguiu sobreviver a 300 anos de repressão moral e legal. Sempre presente nas festas populares, nas ruas, atraiu adeptos que não deixaram que ela morresse ao longo da história. Dos corridos e ladainhas da Capoeira saíram muitas de nossas músicas populares. Muita gente bebeu dessa fonte: Caetano, Gil, Elis, Vinicius,… A plasticidade dos movimentos da Capoeira está espalhada em fotos por todo o mundo, assim como em vídeos, pinturas,… Muita gente já tirou muita coisa da Capoeira, mas para o Mestre de Capoeira interessa saber daquele que o ajuda a fazer a Capoeira acontecer, que toca um instrumento, que enfrenta a exposição de jogar na roda, que mantém o ritual vivo, que respeita e luta por suas tradições porque o entende por dentro e não só como quem o assiste. O mestre quer saber daquele que dá para Capoeira, que a faz acontecer, que acontece junto com ela.

Fiz um rápido resumo de minha experiência como capoeirista e das questões que envolvem a utilização da Capoeira para outros fins que não sejam simplesmente “fazer capoeira”, porque quero dar maior validade ao que vou afirmar a seguir:

O excessivo valor e extraordinário poder bioenergético que Roberto Freire atribui à Capoeira são conseqüência de uma compensação fantasiosa do seu próprio desejo e impedimento de praticá-la, associada à necessidade de inventar a existência de um suposto exercício plenamente desencouraçante. Freire afirma tudo o que afirma sobre a Capoeira, sem jamais ter se tornado um capoeirista:

Foi em 1976 que introduzi o jogo da Capoeira como contribuição importante ao trabalho terapêutico da Soma. (…) Dois anos depois de iniciado, por razões de saúde, fui obrigado a parar com os exercícios físicos da Capoeira. Isso fez que não conseguisse, por muitos anos, prosseguir nessa busca da fusão da Soma com a Capoeira, coisa que julgo essencial para que ela possa atingir sua total e real finalidade. Na pesquisa atual, assistentes de segunda geração, mais jovens e que praticam Capoeira, me substituem nesse trabalho.” (pg. 62 do livro SOMA 2)

Dois anos de treino e prática de capoeira talvez sejam suficientes para dizer que ela foi pesquisada por alguém, mas sem dúvida são insuficientes para criar um capoeirista. Por outro lado um capoeirista sabe que idade ou limitação física não são impedimentos para participar da capoeiragem. Isso fica claro com os exemplos de vários mestres de capoeira que, mesmo muito velhinhos, com sérias limitações, ainda conseguem cantar uma música ou tocar um instrumento ou simplesmente dar a graça de sua presença em uma roda de capoeira, enchendo-a com seu axé.

Roberto Freire não chegou a realmente entrar no universo da capoeiragem com seu próprio corpo, não experimentou as modificações que a constante prática de Capoeira provoca nos corpos de quem a pratica por anos seguidos. Sua experiência com a Capoeira foi mais associada a uma pesquisa jornalística que passou a ser científica, do que a uma prática. Isso fica claro quando, pesquisando o arquivo dos trinta anos da história de desenvolvimento da “Somaterapia” acoplada à Capoeira, não encontramos nenhuma foto sequer de Roberto Freire segurando um berimbau ou fazendo um movimento de capoeira ou mesmo qualquer gravação de Roberto Freire cantando uma ladainha ou um corrido de capoeira ou participando de uma roda de qualquer forma que seja. Mesmo em fotos ou gravações de rodas de capoeira feitas por seus clientes e terapeutas não encontramos a presença de Roberto Freire próximo a elas. Na verdade quem acompanhou os encontros de formação de terapeutas dados por Freire pôde perceber que o momento destinado às rodas de capoeira foi sempre um momento em que ele se ausentou do espaço para fazer outra coisa.

Estando de fora da prática da capoeira, Roberto Freire comete uma série de equívocos ao fazer afirmações sobre ela. Um dos maiores é associar a já conhecida resistência à terapia, um fenômeno inerente a todo processo terapêutico, com “resistência em treinar capoeira”:

A recusa em experimentar, a treinar e chegar a aprender em seu próprio soma o jogo da Capoeira (…) era sempre acompanhada de referências explícitas a distúrbios de natureza neurovegetativa de todo tipo. Por sua insistência e intensidade antes, durante e após os exercícios, acreditei estar ocorrendo resistência do tipo neurótico, a nível inconsciente, atuando sobre a couraça muscular. “ (pg 76 do livro SOMA 2)

Freire, com cada vez maior convicção, obrigou seus assistentes e clientes a praticarem capoeira e afirmou que a capoeira era a forma mais eficiente de manter-se imune às neuroses. Na prática, porém, essa certeza acontecia dentro do famoso jargão “façam o que eu digo, não o que eu faço”. Tanto clientes como somaterapeutas encontravam dificuldades em se submeter a essa incoerência:

Inclusive, um deles (terapeutas em formação) confessou-me, corajosamente, que no início do treinamento de Capoeira chegara a pensar tratar-se de imposição autoritária e meio sádica de minha parte essa cobrança aos somaterapeutas de seu exercício permanente, uma vez que eu próprio, protegido pela idade e por problemas de saúde, ficava isento disso.” (pg 77 do livro SOMA 2)

Percebam que Freire usa a expressão “protegido” para definir a impossibilidade de fazer Capoeira.

A obrigatoriedade da prática de Capoeira passou a ser questão pessoal:

é preciso confessar a profunda decepção que me causava o fato de os freqüentadores de Soma oferecerem resistência à prática da Capoeira. As razões para essa reação, racionalizações, é melhor dizer, sempre foram muito variadas. Hoje, porém estou seguro de que essas racionalizações derivam, todas, de uma só e bem mais profunda que as demais: resistência neurótica à terapia” (pg 75 do SOMA 2)

É perigoso associar resistência à terapia com resistência em praticar capoeira. Isso leva a enganos como achar que quem mais treina capoeira está mais entregue ao processo terapêutico ou é menos neurótico e vice-versa. Também é perigoso acreditar que “a Capoeira fornece o melhor e mais completo trabalho bioenergético” como afirma Freire na contracapa do livro Soma 2.

Como qualquer outra atividade corporal, a Capoeira tem efeitos sobre a couraça neuromuscular do caráter. Esses efeitos, porém, não são obrigatoriamente benéficos. Obviamente, eles variam de pessoa para pessoa e em alguns casos podem acentuar caracterialidades já cronificadas no sujeito, deixando-o mais neurótico. Vou citar um dos muitos exemplos em que isso pode ocorrer: o trabalho que a Capoeira de Angola faz sobre o segmento torácico-escapular, por ser ela uma luta onde se prioriza a esquiva através do encolhimento, torção e descida ao chão com as mãos, tende a fechar o corpo em volta da região do plexo solar para protegê-la. É claro que a capoeira também tem movimentos que abrem e expõe o plexo solar, porém eles são mais raros, ocorrem com menor frequência durante a movimentação da capoeira. Comumente, o capoeirista está fechando, torcendo e protegendo essa região. Inclusive, relaxar os braços, desproteger o rosto e abrir o peito durante o jogo é uma chamada para o ataque do outro. O capoeirista que quiser se abrir constantemente tem que se garantir contra possíveis e prováveis ataques. Tem que saber o que está fazendo; como, por exemplo, preparando uma armadilha, como quem não quer nada… Mas, para um novato é melhor começar bem fechadinho. Para uma pessoa que necessita de um forte trabalho de abertura dessa região por suas características corporais históricas, haveria muito mais benefícios caso ela fizesse dança-afro do que se treinasse capoeira. A dança-afro trabalha intensamente a mobilização dessa região, abrindo e fechando o plexo através do movimento rápido de ombros, costelas, braços e mãos, embalados pela pulsação de sua musicalidade tribal. Já a prática da Capoeira de Angola aumentaria a probabilidade de tornar essa pessoa mais encouraçada. O pior dessa situação seria o fato dessa pessoa acreditar, por confiar no que diz Roberto Freire, que está ocorrendo exatamente o contrário – um desencouraçamento do seu corpo, uma descronificação desse traço caracterial. Isso contribuiria para diminuir a consciência corporal dessa pessoa e não para amplia-la.

Enquanto terapeuta, apesar de continuar sendo capoeirista, entendo como absurda a obrigatoriedade da prática da capoeira junto com o processo terapêutico dos grupos com que trabalho. Não só porque conheço os efeitos da constante prática da capoeira sobre meu próprio corpo como também porque passei a entender que a terapia não é “a terapia que eu quero”, mas sim um conjunto de propostas num constante diálogo entre terapeuta e terapeutizante, onde ambos tem o que ensinar e aprender.

Foi para fugir do ciclo: desencouraça – reencouraça, que Wilhelm Reich passou a se dedicar mais à Análise do Caráter do que ao desenvolvimento de técnicas desencouraçantes, por entender que na Análise do Caráter estava a chave para entender os padrões de reencouraçamento.

No livro Soma 1, Roberto Freire dedica todo um capítulo para falar de caráter e dos diferentes estudos de Freud, Abraham e Reich (via Alexander Lowen) sobre tipos de caráter. Porém, na prática da Somaterapia-de-Roberto Freire é descartada toda e qualquer prática caracterio-analítica reichiana e pós-reichiana. Provavelmente por ser essa prática o constante elo que Reich manteve com o universo psicológico, ao qual Roberto Freire quer se opor radicalmente criando um universo somente “somático”. Numa metodologia terapêutica reichiana, ao não se investir em pesquisa e análise caracteriológica, cria-se a necessidade de investir pesadamente em processos de desencouraçamento, pois não se trabalha no mecanismo de reencouraçamento. Daí nasce a necessidade de Freire em descobrir e decretar a prática obrigatória de um suposto exercício amplamente desencouraçante.

Freire fala que deve se lutar contra o “caráter neurótico”

É importante frisar que o caráter não deve ser visto como um inimigo. Reich nunca afirmou que a saúde psicossomática estava na ausência de caráter. Pelo contrário, dizia que estava no caráter maduro, ao qual ele chamou de caráter genital, que teria consciência sobre seus processos de encouraçamento, com capacidade de tornar sua couraça situacional, mas sem dispensar a proteção que ela oferece quando a situação assim não permitir.

É preciso cuidar da falsa concepção terapêutica de que quanto mais desencouraçado melhor. Nesse ponto, concordo com o que fala Loil Noedhoefer em seu livro Trabalho corporal intuitivo – uma abordagem reichiana: “em bioenergética o pouco é muito”.

Como já disse anteriormente, a discordância desse caminho me levou à criação de um método terapêutico próprio. Nele também acredito ser fundamental uma atividade corporal cotidiana distinta e paralela ao trabalho terapêutico. Entendo que neste ponto a proposta de Freire trás importante material de informações e transformações corporais decorrentes de outras fontes além das propostas na terapia, ajudando a colocar o corpo em movimento de forma diferente, tirando-o da inércia.

No entanto, o corpo único e específico de cada pessoa, bem como os desafios a que ela se propõe dentro de seu processo terapêutico, são os guias que devem orientar a melhor escolha para esse trabalho corporal paralelo, seja ele qual for: dança contemporânea, natação, capoeira, yoga, karatê, tai-chi, dança afro, futebol, etc., etc., etc.

Toda e qualquer atividade física constante e cotidiana mobiliza bioenergeticamente de forma a desencouraçar certas estruturas neuromusculares caracteriais e criar outras; mesmo que diferentes ou mais sutis. Toda atividade física regular implanta “vícios” de postura e expressão, fortalecimento diferenciado dos músculos, modos recorrentes, manias, etc. Não existe a atividade física cotidiana plenamente desencouraçante ou mesmo que seja indicada para facilitar o processo de desencouraçamento em todas as pessoas, ou ainda – não existe “a atividade física mais bioenergética de todas”.

Cada pessoa tem caracterialidades diferentes e distintas umas das outras. Isso significa que a couraça neuromuscular de cada um é única, como é única a forma de cada um se defender. A atividade física paralela ao processo terapêutico não deve ser previamente determinada, mas aberta para ser a mais indicada, dentre as muitas possíveis, para mobilizar a couraça neuromuscular estruturada pela história pessoal e o temperamento nato de cada um. No máximo deve haver um incentivo para que se busquem atividades novas, diferentes das historicamente preferidas, por trazerem novos desafios e novas possibilidades de movimentação.

“O trabalho feito na Soma de atuação sobre a Couraça é reconhecidamente insuficiente para manter e ampliar as conquistas feitas pelo indivíduo durante a terapia. (…) É justamente por isso que insistentemente os clientes são informados da importância do trabalho corporal complementar e indispensável ao sucesso da terapia … A Capoeira tem sido o instrumento de pesquisa por nós escolhido, pela nossa afinidade político-ideológica com ela e pela eficácia com que mexe nos anéis de Couraça Neuromuscular, proporcionando uma circulação bioenergética mais rápida e completa.” (pg. 184 do livro Soma vol.2).

Com a Capoeira, Freire quer ultrapassar as limitações de seu trabalho terapêutico. Não só as limitações da técnica em si, como também ao período de tempo em que ela acontece. Ele quer deixar alguma coisa que permaneça atuando sobre a pessoa mesmo depois que ela tenha terminado a terapia, uma prática que garanta sua constante saúde psicossomática, que a mantenha não-neurótica nas diversas fases futuras de sua vida. Para levar a cabo essa imensa tarefa era preciso achar uma atividade perfeita. Esse é outro ponto que alimenta os super-poderes que Freire diz ter a Capoeira – a tentativa de encontrar essa perfeição já pronta e simplesmente “descobrí-la” em um ritual que já estava presente em nossa cultura há 400 anos. Um verdadeiro “ovo de Colombo”.

 

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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3 Respostas to “qCAPOEIRA 1 – Obrigatório”

  1. Iago Says:

    Achei bastante interessante seu ponto de que a capoeira pode fortalecer certas couraças. Vou discutir isso com o Rui depois, e ver se caço umas leituras a respeito.

    • fabioveronesi Says:

      Resposta a Ruy Takeguma

      À princípio quero dizer que nas primeiras páginas de seu texto existem muitas informações proveitosas. Assim que recebi teus escritos e comecei a lê-los, coloquei o link do teu trabalho no meu, para as pessoas que lessem minha crítica a Soma também pudessem conhecer tua crítica ao meu trabalho. Acho mesmo que críticas bem feitas contribuem para a evolução dos métodos.
      Teu trabalho é extenso e demorei algum tempo para lê-lo inteiro. Infelizmente, quando o li até o fim descobri que em determinado ponto você entra no jogo dos ataques pessoais e não sai mais dele. Tua obra perde o rigor e a validade. É pena. Ou melhor, revela exatamente o que busco apresentar quando digo que você segue radicalmente a utopia de Freire com relação a capoeira e a própria radicalidade.

      A “Crítica à Soma” é apenas um de meus escritos. Está dado. Não gostaria de perder mais tempo com ele, visto que meu universo de produção não gira em torno da Soma. Porém, tuas ofensas a minha pessoa não podem ficar sem resposta. Por isso, sem me estender muito, vou direto à resposta de alguns pontos nos quais você se embasa para me ofender:

      Sim. Eu sou somaterapeuta formado pelo Brancaleone e por Roberto Freire. Isso faz parte do meu currículo de conhecimento e capacidade técnica e me orgulho de ter passado 5 anos fazendo formação. Mesmo optando por não aplicar a técnica, se eu quiser utilizar a metodologia da Soma no seu todo ou em partes eu sou capacitado para isso. Inclusive porque a Soma é uma psicoterapia, apesar do nome tentar negar (e isso é o que justifica minha crítica ao nome, coisa que você diz não entender). Então, se alguém pode ser processado por praticá-la, esse alguém é você que não tem nenhuma formação psi. Além de psicólogo e somaterapeuta, sou também massoterapeuta bioenergético formado por Ralph Vianna. Tenho livre opção por utilizar ou não essas técnicas.

      Sim. Se for necessário, posso comprovar com testemunhas 3 casos de surtos psicóticos havidos em grupos da Soma no período em que fiz formação. Ainda tenho conhecidos que fizeram esses grupos. Os outros 2 casos só ouvi falar, comentados em reuniões do Brancaleone pelos próprios somaterapeutas envolvidos e não por fofoqueiros como você fala sem saber. E reafirmo que nenhum deles mereceu estudo mais profundo no sentido de buscar-se qualquer possível ligação com os processos terapêuticos da Soma que essas pessoas viveram ou estavam vivendo.

      Não. Não foram em grupos coordenados por você, e aconteceram depois de tua saída, embora isso seja mera coincidência pois não te vejo capaz de distinguir os efeitos da resistência à terapia em forma de transferência, visto que sua única formação psi veio do que Freire dizia. Acho mesmo que você não entende nada de transferência e se perdia nas paixões transferenciais assim como todos os outros somaterapeutas. Você tenta dar conta de explicar que não tem confusões com isso, mas só consegue citar várias relações com clientes que confirmam exatamente o que eu disse. Além disso em teus escritos aparece o mesmo preconceito inerente ao método da Soma contra a transferência e outros conceitos vindos da psicanálise e da psicologia.

      Não citei os casos nominalmente por questões éticas. Você não está nem aí para ética, expõe a si mesmo e aos outros em demasia. Nesse teu impulso, você acabou citando nominalmente um dos casos de surto esquizofrênico. Acha ético isso? Já parou para pensar que a pessoa que você citou não só fez Soma como também fez seções individuais com Freire durante um bom tempo? Por isso pense bem antes de ameaçar levar certas coisas a tribunais. Pense bem a quem você vai expor. A mim? Acho que não. Mas a quem merece respeito por não poder mais se defender. Eu acho melhor deixar essas coisas quietas. Porém, é preciso citar o fato de que esses casos aconteceram, assim como buscar entender suas causas relacionadas ao método, para que eles não aconteçam mais.
      O que está posto é minha palavra. Não tenho necessidade de mentir para me afirmar e nem estou fazendo acusações ao léu. Revelo o que acredito ser necessário para que tais coisas sejam repensadas.

      Você diz que se minhas afirmações fossem verdadeiras os familiares de tais pessoas teriam processado a Soma. Pois bem, os somaterapeutas falaram pessoalmente com os parentes procurando lhes dar explicações e dissuadindo-os de tal empreita. Até porque não se pode comprovar os motivos exatos que desencadeiam surtos psicóticos. Além disso, vivemos neste início do séc. XXI uma verdadeira epidemia de esquizofrênia. Exatamente por esses motivos é que bons terapeutas tem uma postura humilde diante da perspectiva de um cliente surtar, e não uma postura arrogante como a que você apresenta, tipo: “É comigo? Vou processar!” Eu afirmo o que afirmo não só porque fui testemunha de tais fatos como também porque pesquisei o fenômeno da esquizofrenia durante anos.

      Você diz que vai me processar???!!! O que você entende de esquizofrenia? Tens alguma experiência comprovada de estágio em qualquer entidade psiquiátrica, seja manicômio, seja nos Centros de Apoio Psicossocial? Você já chegou perto de esquizofrênicos e conversou com eles, sobre seus surtos, suas histórias de vida? Ou você, como a grande maioria das pessoas, só conhece o que vê em filmes, como o citado em tuas análises? E teoricamente, o que você sabe sobre esquizofrenia? Sabe algo das teorias do próprio Reich sobre o assunto? Sabe qual o segmento da couraça neuromuscular do caráter o pós-reichiano Federico Navarro chama de sede do traço psicótico e o seu porquê. Você sabe ao menos a diferença entre psicose e neurose?

      Em nenhum momento afirmei que criei um método imune à possibilidade de provocar surtos psicóticos, como você disse que eu fiz. Não sou ingênuo para afirmar tal besteira. Exatamente por entender um pouco da complexidade desse fenômeno chamado esquizofrenia, por estudar as teorias deixadas por Freud, Lacan, Melanine Klein, Reich, Navarro, David Cooper, Basaglia, Gregory Batesson e Foucault, por ter pesquisado a forma como ocorreram os fatos e as alucinações associadas de mais de uma dezena de casos, e por estagiar durante 2 anos em instituições de saúde pública que cuidam de esquizofrênicos, é que jamais afirmaria que um método terapêutico pode achar-se imune a ser um dos fatores que podem estar relacionados ao desencadeamento de um surto esquizofrênico.
      Talvez você tenha essa ilusão com o teu. Talvez por isso tenha ficado tão indignado a ponto de citar nomes e ameaçar (?!) entrar na justiça. Quem sabe você não encontra um tribunal anarquista para dar coerência a tamanha fantasia e incoerência ideológica. Porém, ao invés de mostrar-se tão indignado, é melhor cair na real sobre as coisas que falo e perceber que você pode sim provocar surtos utilizando a metodologia da Somaterapia de Freire, principalmente da forma radical como você a aplicava quando o conheci. Acho bom também estudar um pouco mais sobre o assunto antes de poder colocar-se como autoridade nele.

      Você é autoridade na história da Soma. Nisso respeito tua autoridade, bem maior que a minha, quando afirma que os encontros de formação da tua época não continham as falhas que eu aponto. Pois bem, acho que deixei claro que eu fui o primeiro somaterapeuta que se formou depois da saída de Freire da linha de frente tanto dos processos terapêuticos que ocorriam nos grupos quanto da supervisão nos encontros de formação. Eu participei de todo o período em que Freire foi se afastando, o que inclui alguns anos sem você. Então, eu falo de coisas que você nem sabe. Você fez formação com os somaterapeutas formados por Freire? Não, você se formou com o próprio. Você sabe como é que os outros somaterapeutas aplicavam o método da Soma em seus grupos? Não, só ouvia falar através de alguns poucos relatos feitos por eles mesmos nas reuniões.

      Não tenho necessidade de mentir para me promover. Minha obra pessoal e minha obra escrita são bem mais amplas do que essas críticas que fiz à Soma. Meu universo não gira em torno de Freire e sua técnica. Mas, tive a ânsia de fazer uma análise científica séria sobre a metodologia de Freire, exatamente para me ver livre da responsabilidade ética com os muitos clientes que a Soma já teve ou possa vir a ter, dando-lhes a opção de entender melhor uma série de confusões emocionais que a Soma pode provocar.

      Acho interessante teu estilo “deixa que eu chuto”, mas não cairei nas armadilhas que são tuas ofensas pessoais me chamando de fofoqueiro, mentiroso e daí para baixo. O que você quer é autopromoção na base da baixaria, via escândalos. Isso se percebe quando se lê teus documentos publicados sobre a cisão com Roberto Freire onde você fala de intrigas por dívidas, empréstimos e coisas do gênero. Nesse teu texto mesmo “resposta a Fabio Veronesi” já fica claro isso. Além de mim, você ofendeu diversas vezes ao próprio Roberto Freire, chamando-o entre outras coisas de mentiroso e caduco.
      Porém, você não tece uma linha sequer de crítica ao método. Somente lhe adorna como os outros somaterapeutas em seus escritos, suas teses de mestrado e doutorado. Você se diz diferente deles, mas nesse ponto é exatamente igual. Dentro ou fora da Academia, são um bando de reprodutores da palavras ditas por Freire, só fazem enaltecer seu método. As únicas controvérsias com Freire que você apresenta são intrigas pessoais e fofocas.
      Você afirma que meus escritos são resultado de mágoas mal resolvidas. Isso é uma clara projeção que você faz de teus próprios sentimentos em relação ao teu rompimento com Freire e com o Brancaleone.

      Minha crítica não é à figura de Roberto Freire, mas ao método. Ela só terminou em 2009 porque tive que fazer uma Faculdade de Psicologia para dar base às coisas que disse. Você dá a entender que fui interesseiro ou covarde porque não apresentei minhas críticas enquanto Freire estava vivo. Não imagino nada mais baixo para se apelar quando não há bons argumentos. Eu não apresentei minhas críticas publicamente antes porque não estavam prontas. Apesar disso, como já citei no próprio texto, o primeiro esboço que fiz dessa obra, com 18 páginas, foi entregue ao Brancaleone antes mesmo de minha saída do grupo. Inclusive foram esses escritos que provocaram minha saída.
      Na época (2003) deixei a critério deles apresentar ou não aqueles escritos a Roberto Freire, visto seu estado de saúde fragilizado. Entendo que aquela era a primeira crítica séria feita a seu método. Gostaria muito que eles a tivessem apresentado a Freire, mesmo ainda imatura como estava. Mantive esse documento restrito ao círculo interno do Brancaleone, do qual você não fazia mais parte. Eles sabem da existência dessas críticas há mais de sete anos. À princípio minha intenção era discutir essas questões com eles, no sentido de rever o método e o processo de formação. Mas, a resposta deles foi um email onde decretaram juntos minha secessão. Até hoje não sei se apresentaram esse esboço à Freire. Isso não importa, visto que seu método sobrevive. Entendo que meus escritos ajudam a manter seu nome em voga, mesmo que apontem no sentido de rever algumas questões do método. Tanto é assim que estamos aqui a falar dele. Porém, procurei não fazer nenhum ataque pessoal a sua figura.

      É preciso entender que depois que você foi secessionado do Brancaleone, eu permaneci ligado a eles ainda por anos. Apesar de ser citado em meus escritos, você não participa de muitas coisas que digo sobre as mudanças que estavam ocorrendo na aplicação do método deixado por Freire. Como eu já disse em meu texto, você manteve a radicalidade na aplicação da capoeira e da própria radicalidade, deixada como orientação utópica de Freire.

      Não esperava mesmo que você concordasse com minhas críticas. Não haveria sentido nisso. As críticas que faço ao uso da Capoeira como “descronificante cotidiano” inviabilizam a eficácia do teu método, o SomaIê.
      Apesar da única foto que você apresentou de Roberto Freire participando de um treino de capoeira (foto histórica mesmo, melhor guardar com carinho) continuo a afirmar, como capoeirista e como quem participou durante anos das rodas de capoeira feitas na Soma, que Roberto Freire não sentiu em seu próprio corpo os efeitos da prática constante de anos de capoeira. A fantástica capacidade descronificante que Freire dá à capoeira, é obra de sua capacidade imaginativa, das qualidades de um ótimo romancista.

      Agora, para afirmar o que afirmei sobre a capoeira, eu me tornei capoeirista, senti os efeitos da capoeira em meu corpo, pratiquei capoeira por dez anos seguidos, adquiri a capacidade de promover uma roda, de ser professor de capoeira e finalmente, mais do que simplesmente aplicar o método da Soma, utilizei a capoeira também como instrumento terapêutico fora do contexto da Soma para pesquisar seus efeitos em usuários do serviço dos CAPs adulto e infantil de Florianópolis em oficinas que mantive por dois anos consecutivos. Tenho publicado artigo científico na Revista Extensio da UFSC falando sobre essa experiência e sobre o uso da capoeira como instrumento terapêutico.
      Para afirmar o que afirmei acerca dos processos de desencouraçamento, não só estudei profundamente a obra de Reich como faço massagem bioenergética e aplico grounding desde 1998, formas de literalmente “por a mão na massa” quando se fala de couraça muscular. Além disso, fiz cursos de especialização em Renascimento e Vozterapia com os criadores desses métodos terapêuticos – Leonard Orr e Sonia Prazeres, respectivamente.
      Para afirmar o que afirmo sobre os conceitos psicanalíticos da resistência e da transferência, fiz cinco anos de graduação em psicologia numa universidade federal e estágio supervisionado de um ano em clínica psicanalítica. Atualmente, além de psicólogo, estou me formando como professor de psicologia.

      Então, Takeguma, posso não estar falando verdades absolutas, até porque isso não existe, mas tenho autoridade, competência e experiência suficiente para dar base a minhas afirmações. Não admito ser chamado de mentiroso, fofoqueiro e outras impropriedades de quem em seus escritos não sabe fazer muito mais do que viver a dualidade de adular a metodologia da Soma e ao mesmo tempo ofender pessoalmente a figura de seu criador.

      Fabio Veronesi


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